A infância é a nossa pátria – I

Ana Celeste Mendes
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“A sociedade do Século XXI já não é uma sociedade disciplinar, mas sim uma sociedade de produção. Os seus habitantes já não, por sua vez, “sujeitos de obediência”, mas  sim sujeitos de produção. São empresários de si próprios”.

A Kelly disse-me, há uns dias, que andava a tentar perdoar os pais pelo facto de a terem medicado em criança. A Kelly tem vinte e poucos anos, é norte americana e foi medicada com Ritalina  numa certa fase da sua infância. Os pais da Kelly, que se impacientavam com a sua agitação, levaram-na ao médico e tentaram encontrar uma solução rápida para a acalmar. A Kelly perdeu energia e ganhou uma certa ferida, uma dor. O que a magoa, diz, é perceber que aquilo que sempre  faltou aos pais foi paciência – paciência e tolerância para com a Kelly em crescimento e transformação. “Se tivessem esperado” – diz – “ não teria sido necessário medicação nenhuma porque aos 10, ou 11 anos eu acalmei naturalmente”.

A Kelly sabe hoje que os pais fizeram o seu melhor, sabe hoje que os pais – todos os pais – são pessoas como as outras e que por isso cometem erros, sabe que é preciso perdoar ressentimentos e mágoas para poder avançar. Hoje está alerta – a Kelly também sabe que durante muito tempo fez tudo para magoar a mãe, para maltratar a mãe. A Kelly hoje tenta entender. Mas é ágil a diagnosticar o problema: a impaciência dos pais face à necessidade de darem  tempo aos filhos para que cresçam e a incapacidade dos pais olharem os filhos como seres autónomos, diferentes de si, apartados de si.

Kelly faz esse esforço de reconstrução, anos passados, anos depois.

A impaciência dos pais de hoje. Os pais, construtores de uma sociedade em que as crianças frequentam obrigatoriamente o pré-escolar (tendo as 9:00h como hora limite de entrada). A impaciência dos pais face ao ainda ser criança dos filhos e a impaciência das escolas face ao ainda ser crianças dos alunos – meninos e meninas de 10, 11 e 12 anos com horários diários de saída às 18:25h, meninos que passam tanto tempo na escola quanto um adulto num emprego – meninos e meninas sem sindicatos porque está tudo bem quando o que conta é a aposta no futuro. Crianças carregando mochilas cheias de muitos kgs de livros, passeando  contracturas musculares de crescidos e tensão cervical passível de gente grande. Meninos e meninas  que aprendem inglês desde os 3, desde os 4 anos, crianças a quem se acha muita graça quando exibem as suas competências precoces e reiteradamente estimuladas.  Crianças que se querem competentes, talhadas para o empreendimento e para o sucesso no empreendimento. Crianças bombardeadas  pelo excesso – excesso de estímulos, informação e impulsos, em preparação para responderem, de forma rápida e eficaz, a exigências múltiplas. Silêncio face à abertura, à forma de receberem o universo e os outros, silêncio face à generosidade e à gratidão.

A impaciência dos pais face aos erros dos filhos – os erros catalogados como falhas e não como possibilidades reais de aprendizagem. A impaciência dos pais face aos erros dos filhos porque os pais impacientes face aos seus próprios erros, incapazes face às suas falhas. O amor próprio esvaindo-se pelo orifício do erro, o terror face ao não ser capaz – ser muito mais fácil gostarmos de nós quando não nos encontramos falhas, tão mais fácil gostar dos outros quando não aparentam erros (tão ideais os filhos que contribuem para o sucesso dos pais na sua competência de pais).  

Pais fragilizados,  concedendo aos filhos a ilusão de uma segurança que na vida não existe (porque na vida também há frio e fogo e morte e neve), pais em vigilância permanente, afastando os filhos de todos os perigos exteriores quando, na verdade, o perigo primeiro, o perigo número um, é aquele que nasce no seio, no âmago, no íntimo da vítima que se vê como responsável pela sua condição. O perigo primeiro reside, hoje, na possibilidade real das crianças verem  o seu sofrimento  como consequência da sua falha – e logo da sua humanidade –  e por isso se exponenciarem em competência, em dureza, em fechamento e em cegueira.

Crianças super-ocupadas, programadas e competentes, crianças super-protegidas e debilitadas, sem mundo próprio de crianças, sem arco-íris no dedos,  vazias da magia que, vida fora, as poderá segurar – a infância é a nossa pátria.

Indica-nos Kelly  o descaminho, o caminho árduo.

Fotografia: Pedro Rui Silva

 

 

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Ana Celeste Mendes

É licenciada em Comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, pós-graduada em Jornalismo pelo Iscte e Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação pelo Iscte, onde se encontra a concluir a tese de Doutoramento em sociologia. Enquanto jornalista, trabalhou sobretudo na imprensa de Saúde e na Imprensa Médica - a Saúde, a ciência e a medicina foram, no jornalismo e na academia, as suas áreas de eleição. Entre 2005 e 2015 foi docente de sociologia da Saúde na Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha. O estudo que desenvolveu sobre a sociedade moderna e as estruturas que lhe dão corpo e a observação da forma como a existência do indivíduo contemporâneo conflui maioritariamente para o cansaço generalizado, a desidentificação e falta de sentido face à existência, levou-a a procurar, juntos das Filosofias Milenares do Oriente, concepções e práticas que, diferentes e distantes das nossas, equilibrem a forma de vida das sociedades ocidentais. Foi na persecução deste objectivo que se Diplomou em Medicina Chinesa da Universidade de Medicina Chinesa Dr. Pedro Choy, dedicando-se, actualmente, à prática clínica da Medicina Chinesa. A prática regular do Yoga Sánkhya veio contribuir para a consolidação da ideia de que, detendo um conhecimento técnico e científico inigualável e a possibilidade de óptimas condições materiais de vida, as sociedades do ocidente necessitam de se equilibrar, através da introdução de um ritmo de vida mais consonante com a Natureza do Indivíduo e do Cosmos. É de acordo com esta visão, seguindo esta tónica, que se dará, através de crónicas semanais, a colaboração com o Gaibéu.

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