Elevadores

Sérgio Lopes
Latest posts by Sérgio Lopes (see all)
Quantas vezes já se depararam com um elevador avariado e tiveram que ir pelas escadas?

A maioria das pessoas, sempre que se desloca a um local onde existe elevador, não hesita e faz uso dele. Basta irmos para um centro comercial ou estação de comboio, para percebermos que o elevador é frequentemente utilizado por quem ali passa.

Nesta mesma observação, é visível que a larga maioria das pessoas que apanha o elevador não sofre de nenhuma dificuldade física aparente e basta repararmos que quando o elevador demora a chegar ou está avariado, essas pessoas optam pelas escadas.

E quando essa opção não é possível?

Pois é, existem pessoas como eu que não têm outra opção quando os elevadores estão avariados e têm que voltar para trás, interrompendo assim o seu destino e, em alguns casos, podendo ficar isolados naquele local até que o elevador seja reparado.

Então, um dia destes, estava a observar um dos elevadores avariados da estação de comboios de Vila Franca e pude reparar na quantidade de pessoas que se dirigiam para o elevador e, quando se deparavam com a sua avaria, seguiam o seu percurso pelas escadas. Eu já estava do outro lado porque em Vila Franca é possível fazer a mudança de linha pela passagem de nível junto à Fábrica das Palavras.

Ao observar um senhor cego – as dificuldades que ele teve até perceber que o elevador estava avariado ou até perceberem que ele necessitava de ajuda para alguém o encaminhar para as escadas – fiquei com alguma ‘’raiva’’ daquelas outras que insistiam na chamada do elevador, quando na verdade elas podiam muito bem ir pelas escadas.

Então só pensava que aquelas mesmas pessoas deviam sofrer as mesmas consequências que eu.

Sempre que um elevador estivesse avariado e uma pessoa se dirigisse a ele, deveria aparecer um segurança que limitasse logo o destino daquela pessoa.

‘’Desculpe, mas o elevador está avariado.’’

‘’Ok, vou pelas escadas…’’

‘’Se poderia ir pelas escadas antes, não deveria dirigir-se primeiro ao elevador. Agora terá que se desenrascar por outra via.’’

Eu sei que isto parece ser muito radical, mas é pelo que ‘’nós’’ passamos sempre que algo do género acontece.

No caso concreto das estações de comboios, a solução que temos é esperar um comboio no sentido oposto ao que queremos ir e, chegando à outra estação, trocar de linha (se o elevador da outra estação também não estiver avariado) e regressar então no comboio certo para o nosso destino.

Um dia regressei para casa a um domingo já depois das 22h, e ao chegar à estação da Póvoa o elevador estava avariado, era o penúltimo comboio e já não tinha tempo de ir até Santa Iria e regressar no outro. Fiquei um pouco assustado pois já era tarde e quem conhece aquela zona sabe que não é uma área com muito movimento durante a noite (como quase todas as zonas junto às estações de comboios no nosso concelho). Então, tive que sair pelo lado mais junto ao rio e fazer cerca de 1.5km para poder chegar ao outro lado da estação; saliento que estava muito escuro e é uma zona com pouca iluminação.

Perguntar-me-ão se é por andarem nos elevadores que eles avariam.

Claro que não, mas é o uso frequente que os faz atingir o desgaste material mais depressa.

Com este texto não estou a dizer que o elevador deva ser só para as pessoas X ou Y, mas para que tenham consciência que, se um elevador tem uma média de utilizações até à próxima avaria, cada vez que ele é utilizado sem necessidade aparente, danificar-se-á com mais frequência e pessoas como eu poderão ficar isoladas, ou outras pessoas, como aquele cego, poderão ficar perdidas no espaço.

À excepção das ocasiões em que as pessoas ficam fechadas nos elevadores e são retiradas, na sua grande maioria, pelos bombeiros, algumas das avarias não são concertadas no local pela equipa de manutenção, fazendo assim com que a reparação de um elevador chegue a ultrapassar mais de 24h (no caso dos fins de semana chega a passar as 72h).

Imaginemos que um elevador tem uma média de avarias a cada 1000 utilizações e esse mesmo elevador é utilizado 200 vezes por dia; isso faz com que aquele cego ou eu fiquemos ‘’presos’’ uma vez por semana.

Muitos de vocês chegam ao fim do dia e vão fazer as vossas caminhadas, quando na verdade andaram o dia todo a evitar andar o menos possível: mas sim, com o uso de elevadores, escadas rolantes ou até mesmo na utilização do vosso carro em percursos relativamente aceitáveis para poderem andar de transportes públicos ou se deslocarem a pé.

Espero com este texto sensibilizar-vos um pouco para que evitem o uso dos elevadores desnecessariamente, pois ele é um meio indispensável a pessoas com mobilidade condicionada e a vossa saúde também agradece.

Agradeço a vossa compreensão.

Muito obrigado.

Imagem: Pixabay

[the_ad id=”10436″]

Pub

Sérgio Lopes

Chamo-me Sérgio Lopes, tenho 33 anos e nasci a 16 de Abril de 1982. Moro na Póvoa de Santa Iria. Sou tetraplégico desde o dia 5 de Maio de 2003 na sequência de um acidente pessoal com uma queda de um tecto de uma obra numa casa de férias. Trabalhei como pasteleiro durante 4 anos antes do acidente. Faço parte da Mithós-Histórias Exemplares, do Movimento (d)Eficientes Indignados e colaboro com o Centro de Vida Independente. Continuo ligado aos Bombeiros da Póvoa de Santa Iria como bombeiro de 2ª Classe no quadro de reserva.

alexandresergio has 9 posts and counting.See all posts by alexandresergio