A sociedade dos monstros modernos
O paradigma mudou.
A forma como as pessoas comunicam alterou-se profundamente.
Bem sei que isso está à vista do mundo inteiro, o problema é quando a comunicação esventra todas as convenções básicas e fundamentais no relacionamento entre um e outro.
A liberdade de cada qual termina quando começa a responsabilidade criminal.
Dito assim, parece uma coisa daquelas que lemos e que passam ao lado.
Mas não é.
É nessa altura que começa a chacina.
O horror, perceber que metade do mundo sabe que o paradigma mudou, mas não sabe lidar com essa mudança.
Pensa, esse meio mundo, no entanto, que acha que sim, que comunica, e comunica.
Mais que comunica, revela-se.
O horror assume contornos de surreal quando a outra metade do mundo, a que sabe, de facto, utilizar a dádiva dos deuses digitais, a aproveita e tenta moralizar. É imediatamente fuzilada pelos guardiões da sua própria verdade.
A mudança do paradigma é um desafio que obriga ao apelo à inteligência, coisa que não abunda e isso provoca danos no processo.
É que há uma diferença entre Edison, ou Bell, ou Einstein, ou Gates, ou Jobs, ou DaVinci e Zucker e seus derivados,
É que os primeiros só deixaram as vítimas do seu génio sozinhas quando eles morreram.
Eles mudaram paradigmas.
Os últimos deixaram as vítimas à sua sorte, ainda em vida.
O Facebook, o Twitter e outras redes que desconheço contribuem para as alterações climáticas, cada vez mais agrestes, pela toxicidade que libertam para o ar. O Instagram tenta resistir às tentativas de invasão, tenta manter todo o seu glamour, o LinkedIn é outra coisa, um lugar onde as pessoas se sentam numa enorme sala de espera, esperando nem elas sabem bem o quê.
Enquadrando,
os protagonistas das mudanças de paradigmas devem, eles próprios, ter sentido de Estado.
O criador do monstro não o pode deixar à solta, ele tem que balizar, definir, restringir, sancionar, prender o monstro até que ele saiba comportar-se em sociedade, na sociedade dos monstros modernos.
Não acredito que os novos revolucionários do mundo pensem que criaram um monstro e ele que se desenrasque. Não, eles estão apenas a assistir, ao vivo, à cadeia alimentar no seu ritmo desenfreado.
A presa e o predador.
O que o tal meio mundo parece não ter entendido, ainda, é que nada disto é virtual, nem mesmo a lâmpada ou o telefone, nem mesmo a relatividade, nem mesmo a gravidade, nem mesmo a Cloud da maçã, ou a geringonça.
Nem mesmo as redes sociais, muito menos elas.
Elas são o telefone, a lâmpada, a relatividade, a gravidade, a maçã. Elas são a geringonça.
Elas não passam de um grande megafone armado em parvo.
No fim do genocídio, corpos de letra espalhados pelo chão, frases amputadas dos membros, vídeos e fotos carentes de uma bola vermelha no canto superior direito, às sem H, “sentemse” sem hífen, ou fala-se mais com hífen a mais, no fim do genocídio recolhem-se os despojos do dia, apagam-se memórias, bloqueiam-se vozes e fazemos log off.
No dia seguinte tudo recomeça, porque o paradigma mudou.
Li ontem que há clínicas, médicos e métodos para tratar as doenças e os vícios das redes sociais.
Esqueça tudo o que leu sobre os génios,
fique nesta última frase:
é que nada disto é virtual.
Há meio mundo que ainda vive dentro da caverna, mas um dia vai entender que do lado de fora existe a luz.
Pode é demorar muito tempo.
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