Emigrar para África

Ana Paes
Seguir
Latest posts by Ana Paes (see all)



Quando um jovem decide emigrar, tudo parece fantástico. E provavelmente até é mesmo algo fantástico. Novas experiências, novas culturas, novos amigos e mil e uma aventuras pela frente. Para trás ficam o pai e a mãe, os amigos que acabarão por perceber que nunca foram assim tão amigos, um país que não preenche as expectativas e pouco mais.

Quando se emigra numa idade assim não tão jovem, não parece ser assim tão fantástico mas revela-se interessante. Tem-se novas experiências, não tão diferentes quanto isso, novas culturas que até nos fascinam nas primeiras semanas, novos amigos que poderão vir a ser grandes amigos – ou não – e algumas aventuras que até acabamos por dispensar.

Emigrar para África numa idade assim não tão jovem parece ser fantástico, mas não para todos. Para África, sim. Emigrar para África é ser corajoso. Dizem. Os que nunca emigraram  para África.

Vens de lá outra pessoa. Tudo será diferente quando regressares. Dizem os que sabem do que falam.

África obriga-nos a parar no tempo. Obriga-nos a fazer uma pausa na vida que conhecíamos até então. Não é algo que se explique. Sente-se.

De repente, o que dávamos como certo transforma-se na maior das incertezas e até parece não ter assim tanta importância. Por outro lado, as outras coisas, aquelas a que não dávamos a mínima importância, revelam-se estrondosamente fundamentais para nos encontrarmos a nós próprios.

[the_ad id=”10436″]

Pub

Descobrimos que somos outra pessoa. Ou talvez não. Descobrimos que existe uma outra pessoa em nós. Que se, sempre existiu, nunca antes se tinha revelado.

Emigrar para África numa idade assim não tão jovem, não é assim tão fantástico e corajoso. Choramos. Temos medo. Rimos. Vamos à luta. Sentimos dor. Amamos. Mas fantástico? Fantástico talvez não. Talvez se tivéssemos menos vinte anos. Aí sim, teria sido completamente diferente. Acredito que sim.

Numa idade assim não tão jovem, não deixamos só a mãe e o pai para trás, deixamos o amor da nossa vida, os filhos, os irmãos, os sobrinhos, os amigos de sempre e um país que descobrimos amar com todas as forças. O nosso país.

Em África descobrimos o que somos e o que não gostaríamos de ser. O que temos e o que poderíamos não ter. O quanto ganhamos e o que não podemos perder.

Em África sentimos a mudança em nós. E queremos mudar.

Em África aprendemos a falar de outras coisas. A pensar outras coisas. E só pensamos em partilhá-las com os que deixámos para trás. E aí só queremos que a distância se torne o mais curta possível e que os dias passem a correr.

Porque emigrar para África numa idade assim não tão jovem faz-nos perceber que, do que precisamos mesmo, é de aprender a viver.

Imagem: Pixabay

Ana Paes

"Coração maior, gosta das manhãs. Irrita-se com a incompetência, mas dedica a sua vida a acabar com ela. Tira, dos sorrisos das crianças, a força que a faz levar tudo à frente. Correcta, honesta, franca, de sorriso fácil. Quem a conquista, jamais a perderá." - SUSANA DINIZ Ana Paes é educadora de infância e professora de música. Escreve também aqui: Os filhos dos outros

ana-paes has 15 posts and counting.See all posts by ana-paes