Fardas na Escola Pública. Porque não?

Rui Brito Fonseca
Seguir

Nos últimos anos, Portugal assistiu a uma significativa redução no rendimento disponível das famílias.

Quem tem filhos sabe bem o quanto pesa no orçamento familiar a aquisição regular de vestuário e acessórios para os seus descendentes. As crianças e os jovens, quanto mais avançam na idade, mais sentem a pressão social dos pares e do meio onde se inserem para se vestirem de acordo com o seu grupo de amigos.

O vestuário é hoje um elemento altamente diferenciador dos grupos sociais e dos estratos socioeconómicos aos quais esses grupos pertencem. Um adolescente, por exemplo, está constantemente a ser pressionado pelos seus pares para vestir peças de roupa de uma determinada marca, ténis doutra e acessórios de outra. A desobediência ou não conformidade com as normas de vestuário do seu grupo, implica, muitas vezes, o ostracismo e o bullying, conduzindo os jovens a estados depressivos e de auto exclusão. Para dar resposta à pressão dos pares, os jovens – sobretudo na adolescência – transferem essa pressão para os pais e para a economia familiar, levando por vezes a inversões de prioridades no orçamento doméstico, de modo a dar uma resposta positiva aos anseios de consumo de vestuário dos filhos.

Em Portugal, país onde já nos habituámos a ter tudo ao contrário, é entre os escalões socioeconómicos mais favorecidos que esta pressão se encontra anulada, por via dos filhos dos mais abastados da nossa sociedade frequentarem escolas onde a utilização de farda é obrigatória. De facto, com a obrigatoriedade de utilização de fardas em boa parte das escolas privadas, torna-se possível aos pais das crianças e jovens que as frequentam, poupar bastante dinheiro.

Para além disso, as fardas permitem a anulação do efeito de diferenciação socioeconómica existente nas escolas onde aquelas não estão implantadas, pois uniformiza as indumentárias, reduzindo alguma conflitualidade e pressão entre pares (dentro e fora das salas de aula). Favorecem ainda o desenvolvimento de sentimentos de pertença e de união entre os alunos de uma mesma escola, fomentando sentimentos de solidariedade e de companheirismo.

Para os pais, para além da já referida poupança na aquisição das roupas que estão na moda, minimiza o tempo perdido a conjugar peças de vestuário e calçado. Resultante do facto de uma farda ser composta sempre pelas mesmas 5 peças de vestuário (camisa, camisola, calça/ saia, meias e sapatos), também é possível desenvolver processos de autonomia nas crianças, permitindo que aos 3/4 anos já se consigam vestir sozinhas, poupando tempo da manhã aos pais.

Felizmente, ao que parece, são cada vez mais as escolas públicas e IPSS nacionais que começam a adotar fardas e códigos de vestuário, favorecendo a implementação da obrigatoriedade de utilização de fardas, a breve trecho. Com o tempo, talvez seja possível ultrapassar estereótipos e preconceitos relacionados com a utilização de fardamentos em meio escolar público, ainda existente em Portugal. É preciso quebrar o preconceito que ainda associa a utilização de fardas em meio escolar público a totalitarismos e ao condicionamento da liberdade individual.

Sosseguem os mais conservadores que não é da utilização de fardas que surgirá alguma ditadura ou limitação de liberdade, pois a liberdade e a sua plena fruição resultam da capacidade de pensar e não da roupa que se traz vestida!

Comentários

Comentários

Rui Brito Fonseca

“Expatriado” – no sentido em que está fora do seu destino de nascimento - da minha cidade há mais de uma década por opção, mas Vila-franquense por nascimento e convicção, sou um apaixonado pela cidade (onde me fiz gente) e pelo rio que a constrange. Doutorado em Sociologia e com um percurso superior a 10 anos na investigação científica, sou docente no ensino superior e consultor. Mais que tudo, é o prazer de comunicar e a necessidade de exprimir conhecimentos e interpretações das realidades quotidianas que me fazem abraçar este projecto. Espero ser útil…

pedro-fonseca has 10 posts and counting.See all posts by pedro-fonseca

5 thoughts on “Fardas na Escola Pública. Porque não?

  • 22 Janeiro, 2016 at 14:17
    Permalink

    Liberdade criativa na escrita não é sinónimo de qualidade na escrita. Pense nisso. E “meu caro” parece-me demasiado paternalista.

  • 22 Janeiro, 2016 at 0:19
    Permalink

    Para quando um cronista em condições? É que este repete-se, diz-se e contradiz-se num único parágrafo… E já agora, há assuntos bem mais prementes para discutir sobre a escola pública.

    • 22 Janeiro, 2016 at 10:03
      Permalink

      Meu caro, se não quiser ler, não tem de ler.
      Em democracia existe o direito à divergência de opinião, assim como à liberdade criativa na escrita.
      Cumprimentos,

  • 20 Janeiro, 2016 at 14:14
    Permalink

    O mais complicado – mas explicável sociologicamente -é que os principais interessados, ou seja os pais dos grupos sociais menos favorecidos, são aqueles que mais resistência apresentam à utilização de fardas.
    Se fosse possível explicar de um modo aceitável para estes que a utilização de fardas reduz os custos com o vestuário dos filhos e que resolve alguma conflitualidade escolar, para além de promover o emprego e a produção nacional (se a produção de fardamento fosse assumida pelo Estado, seria possível gerar emprego público e diminuir as importações de vestuário). Estamos a falar de um negócio de milhões que poderia estar nas mãos do Estado, gerando receitas para os cofres do Estado, por um lado, e diminuindo desigualdades sociais, por outro. Por fim, as famílias mais carenciadas, poderiam ter apoios para a aquisição do fardamento, através da apresentação das suas declarações de IRS, como acontece com os restantes apoios sociais.

  • 20 Janeiro, 2016 at 8:51
    Permalink

    Bom dia! Andei de bata num colégio privado e andei de bata num liceu público, e nunca me “caíram os parentes na lama”… As mães do meu tempo, com ou sem dinheiro, aproveitavam a bata para poupar na outra roupa. Também não havia “marcas”, porque o pronto-a-vestir ainda andava de “fraldas”…pelo menos cá pelo burgo. Concordo com a “farda”, ou pelo menos pela limitação do tipo e cor da roupa. Por exemplo: jeans azuis sem marcas visíveis, t-shirts de cor pré-definida, lisas e sem marca, com ou sem mangas, conforme a estação. Camisola ou pull-over no mesmo estilo. Sapatos pretos com ou sem atacadores, ou ténis brancos sem marca. Era mais fácil, e mais barato, para os pais.

Comments are closed.