Aqui há gato… ou sobre os T.P.C., as crianças e o futuro!

Rui Brito Fonseca
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Não sou pedagogo nem pretendo sê-lo. Sou pai e educador!

Em tempo de início do ano escolar, volta sempre à discussão a utilidade dos vulgares T.P.C. (trabalhos para casa).

Pela minha parte, e naquilo que toca ao meu núcleo familiar, defendo a execução quotidiana de T.P.C.

Ao contrário daqueles que advogam uma infância e adolescência livres de T.P.C., capaz de conferir aos estudantes um tempo pós escolar completamente dedicado ao lazer e às brincadeiras, sou defensor de um tempo pós escolar em que haja trabalhos escolares para realizar (de preferência com a supervisão e/ou participação dos pais).

Há mesmo quem diga que as crianças já têm demasiadas actividades extra curriculares, como o ballet, o piano e a aprendizagem de línguas. Mas são essas crianças sobre ocupadas, o retrato da criança média portuguesa? A generalidade das crianças portuguesas, se não tiver trabalhos de casa, ocupa o tempo pós-escolar a jogar computador ou a ver televisão, não convivendo com a restante família. Apenas os filhos dos grupos sociais mais favorecidos é que têm as ditas actividades extra curriculares pois estas, normalmente, implicam o pagamento de uma quantia em dinheiro. Num país depauperado como o nosso, a generalidade das famílias não tem dinheiro sequer para “o fim do mês”, quanto mais para as actividades extra curriculares dos seus infantes.

Vivemos numa sociedade onde o facilitismo e a preguiça são socialmente premiadas, onde a obtenção de proveitos sem sacrifício e compromisso é olhada positivamente. Ao afastarmos os T.P.C. do quotidiano dos nossos filhos, estamos a convidá-los ao facilitismo e à desresponsabilização.

Pessoalmente, defendo a realização quotidiana de T.P.C., pois defendo que é nas idades mais tenras que temos de incutir nos indivíduos noções como o compromisso, o empenho, o esforço e a dedicação. Não se pode estudar sem esforço, sem empenho e sem o sacrifício do tempo de lazer. Considero que é logo no 1º ciclo que estes valores e práticas têm de ser incutidos, de modo a formar cidadãos com maior capacidade de compromisso e dotados de uma capacidade de resistência à adversidade e à frustração maiores.

Dir-me-ão alguns que as crianças têm de brincar muito, para exercitarem a sua criatividade. Estamos de acordo, mas no período pós escolar as crianças têm tempo suficiente para os T.P.C. e para brincar. De facto, por terem de organizar o seu tempo pós escolar em tempo de T.P.C. e tempo de brincadeira, também os ajuda a gerir melhor o seu tempo e a adquirirem uma maior capacidade de organização do tempo no futuro.

O que a ideologia do facilitismo e da preguiça está a fazer pelas nossas crianças e jovens produzirá resultados em alguns anos. Com o triunfo desta ideologia, corremos o risco de ter no futuro uma massa enorme de adultos incapazes de lidar com a frustração, com dificuldade de organização do tempo, com dificuldade de compromisso e onde o sacrifício será olhado de forma ainda mais negativa. De modo algum, iremos criar adultos mais criativos e felizes!

Urge trazer de volta a ideologia do compromisso, do empenho e do sacrifício, incutida desde tenra idade em casa e na escola e onde os T.P.C. têm um papel central. Uma ideologia que seja capaz de criar uma geração com uma maior capacidade de resistência às adversidades do quotidiano e melhor preparada para o mundo do trabalho. Esse é um dos motivos principais pelo qual as crianças oriundas de famílias mais abastadas frequentam escolas onde o rigor, o empenho e o sacrifício são valores praticados no quotidiano escolar e doméstico.

Em alguns casos, os mesmos que publicamente defendem a cultura da facilidade e da criatividade sem obrigações para as crianças, são aqueles que colocam os seus filhos em escolas exigentes e onde a disciplina é rainha. Fico com a sensação que aqui existe alguma segunda intenção…

 

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Rui Brito Fonseca

“Expatriado” – no sentido em que está fora do seu destino de nascimento - da minha cidade há mais de uma década por opção, mas Vila-franquense por nascimento e convicção, sou um apaixonado pela cidade (onde me fiz gente) e pelo rio que a constrange. Doutorado em Sociologia e com um percurso superior a 10 anos na investigação científica, sou docente no ensino superior e consultor. Mais que tudo, é o prazer de comunicar e a necessidade de exprimir conhecimentos e interpretações das realidades quotidianas que me fazem abraçar este projecto. Espero ser útil…

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