Igualdade de direitos e deveres

Sérgio Lopes
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Gostava de ter uma cadeira que fosse confortável e rápida para quando me desloco no exterior poder “andar” sem problemas nos passeios irregulares.

Que fizesse a posição de pé para eu melhorar a minha circulação e que subisse escadas para eu me poder deslocar em todos os edifícios.

Que fosse de baixo perfil para eu poder me aproximar das mesas e poder comer ou confraternizar com os meus amigos sem me sentir excluído.

Que fosse de tamanho reduzido para caber em espaços confinados, como elevadores e transportes públicos.

Tudo isto é possível, mas não num equipamento só.

Da mesma maneira que nos temos que adaptar à realidade de cada um, também devemos adaptar-nos ao meio que nos rodeia no exterior.

De todos os exemplos que mencionei em cima, tive que optar pela posição de pé, com conforto e tamanho reduzidos (apesar de não ser o suficiente para andar na maioria dos elevadores). Por isso, vou aos restaurantes e tenho que comer muitas vezes com o prato no colo ou ficar nas esplanadas. Se tivesse escolhido uma cadeira que sobe escadas, teria ficado sem a posição de pé, o que me faz falta para a minha situação, e o conforto (comparando com os modelos que conheço) também não seria o mesmo.

Algumas das pessoas que se deslocam em cadeiras de rodas acabaram por adquirir cadeiras manuais em liga leve e assim são mais fáceis de transportar para qualquer edifício (ainda que com ajuda de terceiros), podem ter carros adaptados e pegar na cadeira e colocá-la ao lado.

Podem também chegar a qualquer autocarro, com piso rebaixado, entrar sem auxílio de rampas, mas com ajuda de terceiros (motorista ou acompanhantes).

Claro que somos muito discriminados e parece que, em vez de estas situações melhorarem, só temos relatos do contrário. Mas as regras são feitas para serem cumpridas – ou alteradas, desde que seja para melhor.

Quero que os estabelecimentos estejam prontos a receber-me pela porta principal e não (em alguns casos) pela porta de serviço ou do armazém.

Quero que os restaurantes deixem de ter mesas minúsculas apenas com o objectivo de aumentar o número de clientes.

Quero chegar à paragem de autocarro e não me preocupar se tem ou não rampa e se funciona ou não.

Quero decidir no momento quando quero viajar de comboio.

Quero sair de uma festa às 2h e chamar um táxi sem me ter que preocupar em o ter marcado previamente.

Quero ser como a maioria de vocês que estão a ler isto mas apenas com “sapatos diferentes”.

Mas vocês também têm regras.

Não vos basta ter brevê e comprar um helicóptero se não tiverem hangar para o deixar.

Se a vossa garagem tem determinadas dimensões, o vosso carro não pode ser maior (já para não falar que nada vos obriga a ter carro assim que tiram a carta, mas isso fica para outro desabafo).

A vida tem regras, sejamos contra ou a favor delas. Cabe-nos a nós mudarmos – ou fazer mudar – algumas regras que não são do agrado do maior número de todos nós.

Não quero descontos para entrar no zoológico, ir ao cinema ou andar de transportes. Não são os meus 95% de incapacidade que me fazem receber pouco ou muito dinheiro, mas sim a falta de ofertas de trabalho para pessoas com deficiência.

Na verdade, não quero diferença, quero apenas igualdade.

UMA COISA TENHO EU A CERTEZA: ESTE TEXTO NÃO VAI MELHORAR OU MUDAR NADA.

 

Sérgio Lopes

Chamo-me Sérgio Lopes, tenho 33 anos e nasci a 16 de Abril de 1982. Moro na Póvoa de Santa Iria. Sou tetraplégico desde o dia 5 de Maio de 2003 na sequência de um acidente pessoal com uma queda de um tecto de uma obra numa casa de férias. Trabalhei como pasteleiro durante 4 anos antes do acidente. Faço parte da Mithós-Histórias Exemplares, do Movimento (d)Eficientes Indignados e colaboro com o Centro de Vida Independente. Continuo ligado aos Bombeiros da Póvoa de Santa Iria como bombeiro de 2ª Classe no quadro de reserva.

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