Presidenciais… quod erat demonstrandum!

Rui Brito Fonseca
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Depois de uma campanha eleitoral para as eleições presidenciais morna, povoada de candidatos eleitorais mornos e praticamente sem qualquer carisma, o resultado eleitoral final foi o previsto.

Assim, a vitória eleitoral à primeira volta, coube a Marcelo Rebelo de Sousa com 52% dos votos. De todos os candidatos era de longe aquele que apresentava maior notoriedade, devido ao seu papel de comentador televisivo, ao longo dos anos. Para além disso, também a sua carreira de professor catedrático na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa lhe acrescentou visibilidade e estatuto. É preciso também ter em conta que Marcelo Rebelo de Sousa já havia sido candidato a outros cargos públicos, como a Câmara Municipal de Lisboa. Todos estes factores lhe conferiram uma vantagem sobre todos os restantes candidatos, à partida significativa, apresentando-se como o candidato do centro-direita.

Em segundo lugar, com 22,89% dos votos ficou Sampaio da Nóvoa. Ainda que também oriundo da academia, não goza da notoriedade pública e política de Marcelo Rebelo de Sousa. Sampaio da Nóvoa apresentou-se como sendo um candidato capaz de congregar o apoio da ala esquerda do espectro político-partidário nacional. Ainda que gozando do apoio de muitos políticos de destaque do Partido Socialista, este nunca lhe deu oficialmente o seu apoio.

Marisa Matias surgiu em terceiro lugar – a surpresa da noite eleitoral – com 10,13% dos votos. A candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda foi capaz de congregar muitos apoios da ala esquerda da sociedade portuguesa, capitalizando um peso eleitoral muito superior à influência social e política real do partido que oficialmente a apoiou.

Em seguida, com 4,24% dos votos ficou Maria de Belém. A segunda candidata oriunda das fileiras do Partido Socialista, apesar de também ter o apoio público de figuras de proa do seu partido, não foi capaz de chamar a si os votos dos socialistas. Tal como aconteceu no caso de Sampaio da Nóvoa, o Partido Socialista nunca lhe deu oficialmente o seu apoio. De facto, esta divisão interna do Partido Socialista e este “jogo de faz-de-conta” entre o não apoio oficial a nenhum dos seus candidatos, favoreceu Rebelo de Sousa.

Em quinto lugar, Edgar Silva apenas foi capaz de atrair 3,95% dos votos. Com apoio do Partido Comunista Português, não obstante o empenho da organização em mobilizar o seu eleitorado habitual, não foi capaz de atingir os seus objectivos. Ficando muito aquém da habitual votação conseguida pelos candidatos apoiados pelo Partido Comunista Português, em anteriores actos eleitorais presidenciais, não foi capaz de capitalizar eleitoralmente a ideia de um projecto alternativo para o país, nem atrair os votos de protesto dos descontentes com o sistema.

Vitorino Silva, popularmente conhecido como Tino de Rans, obteve 3,28% dos votos. O Tino conseguiu demonstrar que um calceteiro de um meio rural, pouco instruído, alheio às lógicas partidárias dos centros urbanos, recorrendo a uma campanha popular e com poucos recursos, pode conseguir uma votação relevante. Tal como já havia acontecido com a campanha popular e crítica de José Coelho – em 2011 – Vitorino Silva colheu também algum voto de protesto, assim como algum apoio genuíno dos eleitores. Estamos perante um fenómeno eleitoral que não é episódico e que surge carregado de sentido.

Os restantes candidatos tiveram votações residuais e com pouco significado.
Note-se ainda que estas eleições registaram um número muito inferior de votos brancos e de votos nulos, comparativamente a 2011, indicando que quem se dirigiu às urnas tinha uma maior intenção de exprimir a sua posição em relação aos candidatos e não apenas descarregar na urna um voto em branco ou um voto nulo.

A ausência de um candidato presidencial capaz de congregar os votos dos eleitores da ala esquerda do nosso panorama político-partidário retirou-lhe força. É certo que, se a esquerda tivesse apresentado um só candidato – capaz de mobilizar a esquerda e centro esquerda – poderia ter almejado ombrear com Rebelo de Sousa e até vencer as eleições.

A fragmentação em várias candidaturas da esquerda partidária, permitiu a canalização de muitos votos de protesto para candidaturas como a de Tino de Rans e outros. Para além disso, estes resultados demonstram que os votos não são propriedade deste ou daquele partido, esbatendo a ideia de eleitorado tradicional.

Inversamente, à direita do espectro político partidário, os eleitores centraram-se na candidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, demonstrando um maior foco no resultado final e menos nas lutas entre partidos… aliás como vem sendo costume!

Imagem: Pixabay

Comentários

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Rui Brito Fonseca

“Expatriado” – no sentido em que está fora do seu destino de nascimento - da minha cidade há mais de uma década por opção, mas Vila-franquense por nascimento e convicção, sou um apaixonado pela cidade (onde me fiz gente) e pelo rio que a constrange. Doutorado em Sociologia e com um percurso superior a 10 anos na investigação científica, sou docente no ensino superior e consultor. Mais que tudo, é o prazer de comunicar e a necessidade de exprimir conhecimentos e interpretações das realidades quotidianas que me fazem abraçar este projecto. Espero ser útil…

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8 thoughts on “Presidenciais… quod erat demonstrandum!

  • 29 Janeiro, 2016 at 15:57
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    Boa tarde.

    De facto, o Gaibéu está aberto a analisar todas as propostas de colaboração que lhe forem enviadas. É do nosso interesse tornar este espaço um lugar plural, onde caibam todas as opiniões e onde se possam debater todos os assuntos.

    O Rui Brito Fonseca, autor do texto acima, que muito prezamos e a quem agradecemos a generosa colaboração (assim como a todos os que connosco cooperam), não agrediu ninguém com este ou outros textos escritos por si, pelo que nos parecem completamente desajustadas quaisquer insinuações relativas à sua pessoa.

    Torna-se importante frisar que apreciamos a participação salutar dos leitores e que as propostas de colaboração que nos pretendam remeter poderão ser enviadas para o e-mail press@gaibeu.pt, as quais analisaremos com todo o gosto.

  • 28 Janeiro, 2016 at 15:13
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    Talvez não tenha deixado muito clara a minha ideia. Seria um benefício para o site abrir a rubrica a mais autores vilafranquenses, que os há e talentosos. Não quero aqui medir o meu currículo com o do autor (o que seria ridículo), nem substituí-lo na sua tarefa. Faço muitas outras coisas pelo menos igualmente válidas. Mas há muita gente a escrever bem em Vila Franca, à espera apenas de uma oportunidade. Não sou mulher de ofensas gratuitas, mas sim de opinião vincada. Sei o que sou e para onde vou. Nunca precisei que me defendessem do que quer que fosse. E sim, já li um livro. E até já o escrevi também. À direção do Gaibéu: sigam a sugestão do autor e abram-se à diversidade. Todos ganharemos com isso. E continuem o bom trabalho! Sou uma seguidora assídua de outras secções do site. Nesta não perderei mais o meu tempo.

  • 28 Janeiro, 2016 at 14:09
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    Estas pessoas que comentaram devem ser gente com uma grande capacidade de escrita. Provavelmente nunca leram um livro…
    É fácil criticar o trabalho dos outros. Difícil é fazer!!!

  • 28 Janeiro, 2016 at 11:20
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    O autor realmente não é muito dotado, mas vê-se que se esforça. Há que reconhecê-lo. Talvez fosse boa ideia o Gaibéu dar oportunidade a outros autores vilafranquenses, que os há e com talento, de mostrarem aqui o seu trabalho.

    • 28 Janeiro, 2016 at 14:15
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      Desculpe a minha escrita escrita não ser do seu agrado. Cada um tem o seu estilo – chama-se diversidade!
      Felizmente é do agrado de outras pessoas…
      Desconheço a sua obra publicada, mas a minha é pública, vasta e em diferentes âmbitos de intervenção.
      Cumprimentos,

  • 27 Janeiro, 2016 at 19:00
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    Vejo que sabe consultar dicionários online, o que deixa aberta uma nesga na janela da esperança de que um dia consiga finalmente aceitar as suas limitações e parir um texto despretensioso com pés e cabeça, pensado e repensado. Uma crónica ligeira não deve ser urdida de forma ligeira, senão nunca atingirá o seu objetivo. Cronistas há-os aos milhares em todo o tipo de publicações; não é por acaso que de tantos só uma meia dúzia se afirma no panorama das letras (como em tudo na vida). Qualquer pessoa sabe encadear palavras ou ideias, mas só alguns sabem escrever. Ultrapassada a questão da forma, vejo também que na questão dos conteúdos não conseguiu ir além do seu ego. Faltou-lhe essa humildade e marca de sapiência. É pena, desperdiçou mais uma oportunidade de evoluir e constatar que a sua verdade não é absoluta. É apenas a sua verdade, à sua escala, à escala do seu pensamento. Conte comigo para o resgatar para terra sempre que se sentir a pairar acima dos restantes e comuns mortais. Lembre-se que quanto mais sobe mais rarefeito se torna o ar.

  • 27 Janeiro, 2016 at 18:14
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    Caro leitor,
    Agrada-me e agradeço a assiduidade e interesse com que lê os textos que humildemente escrevo!
    Recebo as suas opiniões com interesse e sentido crítico, assim como espero que aceite as minhas.
    Refere-se aos meus textos como crónicas ligeiras. De facto, por definição a crónica assenta numa narração simples (como poderá ver em baixo). Quanto ao conteúdo e ao seu sentido, permita-me democraticamente que expresse a minha opinião, como eu permito que você expresse a sua. Em democracia é assim!
    Naturalmente, deve compreender que o texto que escrevi não pretende ser um artigo de fundo ou uma dissertação académica, dado que tem um formato e dimensão previamente definidos.
    Mais uma vez, agradeço a sua atenção!
    Cumprimentos,

    cró·ni·ca
    substantivo feminino
    1. [Literatura] História que expõe os factos em narração simples e segundo a ordem em que eles se vão dando.
    2. Artigo sobre tema da actualidade, publicado na imprensa ou emitido na televisão ou na rádio (ex.: a polémica crónica do jornalista foi suspensa). = RUBRICA

    “crónica”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/cr%C3%B3nica [consultado em 27-01-2016].

  • 27 Janeiro, 2016 at 16:47
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    Depois de ler mais uma das suas ligeiras e precipitadas crónicas, parece-me pertinente ajudá-lo a refletir e melhorar algumas das suas ideias. Fiquemo-nos pelo conteúdo, uma vez que a forma terá que tentar melhorá-la por esforço próprio.

    Comecemos por Marcelo Rebelo de Sousa: além dos fatores que refere, e talvez mais importante, foi o apoio tácito e despudorado da maioria dos órgãos de comunicação social que o avantajou e funcionou como uma autêntica e gigantesca máquina de campanha eleitoral. Não foram também de somenos as longas, estreitas e duradouras relações de Marcelo com as várias formas de poder que dirigiram e dirigem este país desde o Estado Novo até ao tempo presente. Mais: a vitória de Marcelo deve-se essencialmente a uma plausível jogada de bastidores encenada pelo PS e pelo PPD/PSD. Passo a explicar: o PS ao não apoiar objetivamente um candidato empurrou a sua habitual fatia de eleitores que se situam ao centro para a hoste de Marcelo, engrossando assim a sua contabilidade final. É que o PS sabe que, mais à frente no seu mandato governativo, vai ter que aprovar políticas e medidas que nunca passarão com o apoio do PCP/PEV e BE, tendo por isso que recorrer ao PSD para o fazer. É a velha troca de favores que o tempo se encarregará de confirmar ou negar.

    Às tantas diz o seguinte: “Marisa Matias surgiu em terceiro lugar – a surpresa da noite eleitoral – com 10,13% dos votos. A candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda foi capaz de congregar muitos apoios da ala esquerda da sociedade portuguesa, capitalizando um peso eleitoral muito superior à influência social e política real do partido que oficialmente a apoiou.” Eis um conjunto de afirmações erradas. Marisa Matias, candidata oficial do BE (Marisa Matias e Edgar Silva foram os únicos candidatos expressamente partidários), não só não congregou muitos apoios da ala esquerda da sociedade portuguesa como obteve um resultado eleitoral inferior ao obtido pelo BE nas eleições de 2015, em termos absolutos (469.437 votos nas Presidenciais vs. 550.892 votos nas Legislativas). Os números são públicos, é só consultar as fontes oficiais.

    Maria de Belém foi literalmente deixada à sua sorte por pertencer à fação anti-Costa do PS, apesar da sua história dentro do partido. Sun Tzu escreveu que um dos segredos para a vitória é conhecermo-nos a nós próprios e ao inimigo. Maria de Belém enganou-se no inimigo.

    A CDU volta a repetir um erro de casting com a escolha de Edgar Silva, depois do “fiasco” de António Abreu em 2001. Não obstante o valor humano e político das pessoas em causa, o eleitorado em geral (e do próprio partido) não se identificou com elas. Nos tempos que correm, a discussão e comunicação dos ideais é tão importante como quem os discute e comunica. ´

    Tino de Rans, personagem criado e sustentado pelos media desde o XI Congresso do PS em 1999, obteve um resultado histórico. Já o cidadão Vitorino Silva teria decerto tido um resultado bem diferente, tal como tiveram os outros cidadãos mais ou menos anónimos e seus concorrentes nesta eleição.

    Ao contrário do que afirma, a esquerda teve um candidato capaz de congregar os seus eleitores: Sampaio da Nóvoa. É só fazer as contas. Além disso, e a contrário do que afirma, a esquerda portuguesa precisa de mais do que um candidato, dada a disparidade de sensibilidades que a povoa. Seria um erro estratégico tremendo fazê-lo numa primeira volta. Aliás, o “problema” (quanto a mim calculado como já antes expus) foi não ter havido mais um candidato, e explicitamente assumido, do PS, o que permitiu que uma franja do centro tivesse migrado para a opção “Marcelo Rebelo de Sousa”.

    Entre a uniformidade que elogia na direita e a diversidade que critica na esquerda, a segunda é sempre mais profícua e interessante. Mal dos povos condenados a escolher entre o preto e o branco. A História assim o diz.

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