Viagem a Luanda… 2014

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Rui Brito Fonseca

“Expatriado” – no sentido em que está fora do seu destino de nascimento - da minha cidade há mais de uma década por opção, mas Vila-franquense por nascimento e convicção, sou um apaixonado pela cidade (onde me fiz gente) e pelo rio que a constrange.
Doutorado em Sociologia e com um percurso superior a 10 anos na investigação científica, sou docente no ensino superior e consultor.
Mais que tudo, é o prazer de comunicar e a necessidade de exprimir conhecimentos e interpretações das realidades quotidianas que me fazem abraçar este projecto. Espero ser útil…
Rui Brito Fonseca
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Numa destas viagens de trabalho aterrei em Luanda, Angola. Da chegada ao pequeno aeroporto guardo a memória da confusão de carregadores e da demora do meu motorista que se atrasou cerca de uma hora… (talvez estivesse a jantar, dado que a hora era propícia).
O calor da noite, o bulício dos locais e o trânsito infindável da grande cidade angolana, animado pela pouca ou nenhuma iluminação pública da periferia (apesar da existência de postes de iluminação), geram em nós aquela noção de que estamos noutro lugar, bem distante da Europa luminosa e organizada (às vezes!).

Após a consultoria, em que a negociação dos conteúdos e procedimentos a operar são determinantes, acabámos por ir jantar à Kitanda da Esquina, onde tive o prazer de ser servido e jantar na companhia do Chef Vítor Sobral. A sensação de estar em casa, apesar da distância e a simpatia do Chef, com a atmosfera europeia da maioria dos clientes e a confecção cuidada dos pratos servidos, trouxe-me o odor a Lisboa.
De facto, fica-se com a certeza da existência de duas Luandas, uma de face europeia e economicamente abonada e outra de matriz africana, pobre e excluída. Naturalmente que, na primeira, também estão incluídos muitos angolanos abastados, funcionários de altas instâncias do Estado, empresários e altos quadros do sector privado.

Mas a Luanda abastada, onde circula boa parte dos portugueses que enche a restauração e os centros comerciais locais, corresponde a uma minoria dos habitantes da cidade.
A grande maioria não tem disponibilidade financeira para frequentar o simpático restaurante do Chef Vítor Sobral - e provar as iguarias que por lá se degustam -, bem como outros restaurantes dessa gama. A maior parte dos angolanos vive à margem desta Luanda frenética, urbana, cosmopolita e com posses, vivendo abaixo do limiar da pobreza e sobrevivendo nas periferias da cidade como pode.

É a Angola dual e a Luanda dual que gera tensões sociais e políticas, cuja expressão mais internacional nos surge com o caso de Luaty Beirão. A geração de Luaty é herdeira da Angola pacificada e em reorganização, após décadas de guerras destruidoras. Herdou um país onde a estrutura produtiva e logística se encontrava praticamente destruída e a sociedade fragmentada pelas sucessivas guerras, onde por via da exploração petrolífera e diamantífera foi possível iniciar a reconstrução rápida e encetar uma trajectória de crescimento económico. Luaty Beirão é o resultado de um país em progresso acelerado, onde nem sempre a inserção social e laboral é uma realidade. Sendo um jovem angolano formado em instituições europeias, Luaty pertence à geração daqueles que procuram uma Angola diferente, pois conscientes das potencialidades da sua pátria, com ou sem razão, não se resignam com a realidade.

Entretanto, a sociedade angolana permanece dualizada e a padecer de enfermidades sociais e económicas graves, tal como o nosso país… cada vez mais dualizado e desigual!

Rui Brito Fonseca

“Expatriado” – no sentido em que está fora do seu destino de nascimento - da minha cidade há mais de uma década por opção, mas Vila-franquense por nascimento e convicção, sou um apaixonado pela cidade (onde me fiz gente) e pelo rio que a constrange. Doutorado em Sociologia e com um percurso superior a 10 anos na investigação científica, sou docente no ensino superior e consultor. Mais que tudo, é o prazer de comunicar e a necessidade de exprimir conhecimentos e interpretações das realidades quotidianas que me fazem abraçar este projecto. Espero ser útil…

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