Calçada… Porquê?
A polémica que tem surgido em torno da calçada e do seu valor enquanto património, leva-me a partilhar a minha opinião.

Muito se tem falado em remover a calçada e substituí-la por outros pisos, mais regulares, mais práticos e até mais económicos. Numa pesquisa rápida podemos constatar que o m2 da calçada custa cerca de 25€ e o pavês cimento 15€.
Em primeiro lugar, quando se fala em calçada e calçada portuguesa, trata-se de coisas completamente diferentes, mas feitas com o mesmo material.
Apesar de a calçada portuguesa ter surgido em Portugal por volta do ano de 1500, foi em 1842 que foi feita a primeira colocação da calçada como a conhecemos hoje.
Ao contrário do que muita gente pensa e comenta, ninguém quer remover a calçada apenas porque sim, ou por interesses económicos. Se, no caso concreto de Lisboa, se pode preservar alguma da calçada portuguesa e conciliá-la com passeios acessíveis e contínuos, já no resto do país não tem cabimento continuar a pavimentar os nossos passeios com calçada.
Por muito bem que a calçada esteja colocada e assente, é sempre um piso irregular para as pessoas com mobilidade condicionada. Não se trata apenas dos espaços entre cada pedra e as irregularidades que cada pedra tem, mas também o desgaste que vai tornando a calçada polida e tornando assim o piso escorregadio, mesmo em tempo seco.
Mas, mesmo assim, ainda posso concordar que alguma da calçada portuguesa seja preservada onde tenha algum interesse histórico ou patrimonial. No nosso concelho poderíamos ter alguns locais onde faria sentido ser colocada calçada portuguesa. Dou como exemplo o largo em frente à estação de comboios de Vila Franca de Xira. Em vez daquele piso todo irregular e muito difícil para uma pessoa com mobilidade condicionada poder deslocar-se, seria aceitável um piso em calçada portuguesa com os seus tradicionais desenhos. Um passeio amplo onde se pode conciliar a calçada portuguesa com passeios contínuos e acessíveis a todos.

Na prática, a calçada comum que encontramos com frequência nos nossos habituais passeios, não tem benefícios para além dos que outro qualquer material possua com devida semelhança.
Algumas pessoas usam o argumento de que a calçada é benéfica para o escoamento das águas ou o respirar dos terrenos. Esta é uma falsa questão e basta pensarmos que nos outros países não usam calçada e continuam a ter um bom escoamento das águas. Reparem como no caso da cidade de Londres, uma cidade com um clima mais chuvoso do que o nosso, os passeios são apenas de cimento e não é por essa razão que as ruas não têm um bom escoamento e óptimos acessos.

Mas argumentos ouvimos dos mais variáveis, como o da limpeza da calçada, o, o ser mais difícil remover pastilha elástica de uma lajeta de betão com 60×40 do que de uma pedra de calçada (calcário). Na verdade, o que se devia trabalhar, era que as pessoas não atirassem as pastilhas para o chão.
Cidades como Londres, Barcelona, Berlim ou Milão, não têm calçada nos seus passeios e não têm problemas com as chuvas. Algumas destas cidades têm recebido prémios de acessibilidade, como o que foi atribuído recentemente à cidade de Milão, como a cidade mais acessível da Europa.
Os defensores da calçada também costumam dizer que a calçada é confortável para andar. Estranho argumento, quando ao verificarmos que em Portugal cada vez mais se tem defendido e criado espaços para as pessoas andarem, correrem, e nenhum desses espaços é construído em calçada, mas sim num piso contínuo e sem irregularidades. Para perceberem a dificuldade que é uma pessoa em cadeira de rodas circular nos passeios em calçada, imaginem o que seria se as ciclovias fossem feitas em calçada.

Terminando a minha opinião, não defendam um piso sem ter o conhecimento prático da dificuldade que é poder andar sobre ele.
Até ao ano de 2003, eu também defendia o que desconhecia.

