Do projecto à acessibilidade

Sérgio Lopes

Chamo-me Sérgio Lopes, tenho 33 anos e nasci a 16 de Abril de 1982.
Moro na Póvoa de Santa Iria.
Sou tetraplégico desde o dia 5 de Maio de 2003 na sequência de um acidente pessoal com uma queda de um tecto de uma obra numa casa de férias.
Trabalhei como pasteleiro durante 4 anos antes do acidente.
Faço parte da Mithós-Histórias Exemplares, do Movimento (d)Eficientes Indignados e colaboro com o Centro de Vida Independente.
Continuo ligado aos Bombeiros da Póvoa de Santa Iria como bombeiro de 2ª Classe no quadro de reserva.
Sérgio Lopes

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Muitos são os edifícios que são reconhecidos pela sua arquitectura. Alguns arquitectos ganharam, ao longo da sua carreira, um estatuto de grandeza e cujas obras ninguém põe em causa; quando algo tem de ser corrigido, a sua superioridade leva-os a recusarem quaisquer alterações.

Eu não quero com este texto criticar ou difamar a arquitectura ou os arquitectos em geral, até porque conheço alguns arquitectos que têm feito um excelente trabalho nas acessibilidades.

Vou dar a minha opinião com dois exemplos de edifícios que todos devem conhecer.

A Estação do Oriente em Lisboa. Edifício que foi feito para receber uma estação de comboios, uma estação de metropolitano, lojas, acesso a praça de táxis, paragens de autocarros, etc.

Quem conhece e frequenta aquela estação, percebe que não é muito acolhedora enquanto se espera por um comboio. Quem espera por um comboio no Inverno está sujeito a levar com a chuva e com o frio. Algumas alterações já foram conseguidas, como as ‘’casinhas’’ no piso de baixo para as pessoas estarem mais confortáveis enquanto esperam pela hora do meio de transporte que vão apanhar, mas a colocação de alguns abrigos na gare para as pessoas não apanharem chuva enquanto esperam o comboio parece que tem sido recusada pelo arquitecto que detém os direitos sei lá do quê.

Isto para não dizer que, logo na conclusão da obra, foi detectada uma falha sempre que passavam os comboios na linha. O barulho era tanto nos pisos inferiores que tiveram que ser colocadas as linhas mais elevadas para abafar esse ruído, o que fez com que os comboios agora estejam bem elevados naquela estação, sendo idêntico às medidas antigas e desta forma a dificuldade da CP colocar umas rampas seguras para a entrada e saída de pessoas em cadeiras de rodas. Se ainda se lembrarem, a Estação do Oriente foi baptizada como ‘’o apeadeiro mais caro da Europa’’.

O que é certo é que aquele edifício recebeu já dois prémios, um deles o prémio Brunel Awards 1998, na categoria de Arquitectura e o outro de Estação Mais Segura da Europa, Estudo Europeu DECO 2001. Portanto, o que interessa é que seja bonita para fotografias e se houver um terramoto que não caia, a utilidade e bem-estar dos utilizadores logo se vê…

Apesar da Estação do Oriente ter algumas falhas de acessibilidade, a começar por ser em calçada e isso ser péssimo para as pessoas com mobilidade condicionada, vou abordar o tema das acessibilidades com o meu próximo exemplo.

A Fábrica das Palavras em Vila Franca de Xira. Um dos edifícios emblemáticos da cidade. A minha observação vai ser muito baseada num diálogo que tive com um senhor que, pelo que percebi, é um frequentador assíduo da Biblioteca.

Um dia, estava eu à porta do edifício e o senhor, ao ver-me ali, perguntou se eu queria ajuda para entrar e eu disse-lhe que não. A pergunta dele não foi de forma alguma sem sentido.

A entrada da Fábrica das Palavras tem uma porta giratória como entrada principal – claro que não é nada útil para quem tem dificuldades em se deslocar – e duas portas que são consideradas saídas de emergência. Ora, essas portas só podem ser abertas de dentro para fora, o que impede que qualquer pessoa consiga por lá passar sem que alguém de dentro venha abrir a porta.

O tal senhor, que ficou alguns minutos ao pé de mim, começou a perguntar-me como eu poderia ali entrar e o que achava daquela entrada. Respondi que só conseguiria com ajuda e pela ‘’saída de emergência”.

Ele contou-me que aquelas saídas foram colocadas já depois de o edifício estar concluído e após terem reparado em algumas falhas naquela entrada. Que foram até colocadas algumas faixas autocolantes no meio, para que as pessoas com dificuldades na visão se apercebessem que estavam ali vidros, mas parece que o arquitecto responsável não autorizou.

Não me alongo mais, mas deixava esta observação: São inúmeros os edifícios que são mandados construir pelas entidades públicas e pagos com os impostos de todos os contribuintes. Essas mesmas entidades têm o direito e o dever de exigir alguns requisitos aos arquitectos que vão desenhar esses edifícios ou outras obras.

Um arquitecto não pode apresentar uma obra sem que apresente o que lhe foi pedido e, mesmo que lhe tenha sido dada liberdade para uma obra de qualquer tipo, ele tem de cumprir normas e leis. Mesmo se essas falhas apenas forem detectadas no fim da obra, devem ser imediatamente alteradas sem que o arquitecto utilize o poder dos tais direitos.

Mais uma vez quero deixar claro que não é nenhum ataque aos arquitectos ou responsáveis por qualquer obra, mas não podemos continuar a ver erros que há alguns anos estão previstos na lei e que não podem acontecer.

Os edifícios, antes de serem bonitos, devem ser práticos e de fácil acesso a todos os utilizadores.

Tomei conhecimento de alguns assuntos que refiro no texto através de vários órgãos de comunicação social e outros foram-me relatados por utilizadores dos edifícios em questão. Reafirmo que os factos relatados pelos utilizadores não foram verificados junto das entidades competentes e que, se lhes falta alguma veracidade, os utilizo aqui apenas como exemplo de situações em que os projectos arquitectónicos devem ser acessíveis e que, se não o são à partida, devem ser passíveis de alterações que permitam a utilização por todos os utilizadores em geral, inclusivamente os que têm dificuldades de mobilidade.

Nota: Por lapso no agendamento das publicações, este artigo foi publicado sem que estivesse completo; por esse motivo, pedimos as nossas sinceras desculpas.

Fotografia: Sofia T

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Chamo-me Sérgio Lopes, tenho 33 anos e nasci a 16 de Abril de 1982. Moro na Póvoa de Santa Iria. Sou tetraplégico desde o dia 5 de Maio de 2003 na sequência de um acidente pessoal com uma queda de um tecto de uma obra numa casa de férias. Trabalhei como pasteleiro durante 4 anos antes do acidente. Faço parte da Mithós-Histórias Exemplares, do Movimento (d)Eficientes Indignados e colaboro com o Centro de Vida Independente. Continuo ligado aos Bombeiros da Póvoa de Santa Iria como bombeiro de 2ª Classe no quadro de reserva.

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