Elogio da amizade

Luís Capucha
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O Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira pegou na passada quinta-feira, dia 16 de junho, seis toiros com distinto comportamento, de irrepreensível apresentação, muito trapio e poder (enfim…toiros, com o respeito que esse nome evoca) da ganadaria de Canas Vigouroux, no Campo Pequeno. Há muito que o melhor grupo de forcados do mundo merecia uma corrida só para si, e esteve à altura das responsabilidades.

O que distingue este grupo de forcados dos restantes? Esta corrida foi exemplar para responder a esta questão. As pegas foram todas muito boas, algumas a roçar a perfeição técnica. Uma à segunda e todas as restantes à primeira tentativa, embora numa delas tenha havido um momento em que o forcado, sem se despegar do toiro, esteve pendurado fora da cara. Todas foram espetaculares, embora nenhuma tenha obrigado o forcado da cara a andar uma eternidade a aguentar sozinho todo o tipo de derrotes e tentativas de despejo. E aqui começa a resposta à questão. A pega é, com toda a propriedade, uma obra do grupo, e não apenas de um. O Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca ajuda como nenhum outro!

Claro que os forcados da cara são todos “forcadões”, dos mais experientes aos que agora parecem querer dizer a toda a terra que uma nova geração está aí para manter o nível do Grupo. Todos sabem (e possuem valor para) deixar-se ver, citar o toiro, mandar na investida, recuar templando o galope do animal, escolher o momento da reunião, abraçar o inimigo/cúmplice da pega e aguentar os seus primeiros derrotes. Mas eles também sabem que por trás têm sete amigos dispostos a dar a vida por eles e por todo o grupo, e para além desses sete outros tantos a aguardar a sua vez para lá da trincheira. E que esses sabem e conseguem igualmente desempenhar bem a sua função, nas ajudas, no rabejar, no dominar o toiro e consumar a pega. Numa palavra, este é um grupo com sentido do que é o toureio, de respeito pelo toiro, de alma e verguenza torera. Têm uma escola que faz da pega uma tauromaquia metida na cabeça e nos gestos aprendidos desde miúdos. E sabem que em Vila Franca só essa escola, só esse sentido toureiro, muito para além da coragem e da destreza física (que porém são indispensáveis), permitem a glória de se fardarem de forcados.

Todos os forcados que ali estiveram, fardados uns, na bancada, já retirados, outros, bem como os que não puderam estar, porque já nos deixaram ou por motivos menos tristes, têm pronta na ponta da língua a resposta quando se lhes pergunta o que significa para si serem forcados. Significa pertencer a um grupo de amigos de verdade. Dentro e fora das praças. Um grupo de forcados de excelência só pode ser um grupo solidário, em que cada um confie plenamente no outro, sem dúvidas nem tibiezas. Em que o valor individual dos que mais se destacam não ofusca o brilho maior do conjunto. Em que cada um se sente ligado aos outros pela mais profunda e consequente amizade.

E é esta a principal mensagem transmitida naquela quinta-feira noturna no Campo Pequeno: se quisermos dar um nome ao conceito de amizade, podíamos chamar-lhe “Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira”.

Para além das pegas e dos toiros, pouco há para dizer. Os dois cavaleiros portugueses (Rui Salvador e João Ribeiro Telles Jr.) e o rejoneador (Andy Cartagena) que compunham o cartel montaram o número da moda, baseado em muito “número de equitação circense” e pouca verdade. Só o mais veterano dos três ensaiou outra atitude mais toureira, mas teve o pior lote, as coisas não lhe saíram bem e acabou por capitular, coisa que de resto nem desagrada muito ao público das praças de toiros nos nossos dias. O resto foi a monotonia do costume: quebrar os toiros de saída dobrando-os atrás de uma garupa poderosa, muito capotazo (deveria dizer “mantazo”) entre cada ferro a quebrar ainda mais os toiros, cravagens com o toiro parado e invariavelmente com as cilhas passadas, pouca verdade, mas muita música oferecida pelo Diretor sem critério, mais as voltas à arena que deveriam significar triunfo, mas que hoje em dia nada parecem ter a ver com o mérito ou demérito dos cavaleiros. Simplesmente fazem parte do espetáculo.

Tudo visto fica ainda assim uma impressão muito boa, fruto da amizade e da solidariedade entre os forcados. O valor maior que emprestam como ninguém à Cultura Tauromáquica.

Luís Capucha

Sociólogo, professor no Departamento de Ciência Política e Políticas Públicas do ISCTE-IUL e investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, desde 1987. Coordenador do Mestrado em Administração Escolar no ISCTE-IUL. Os principais temas de pesquisa são as políticas de luta contra a pobreza e a exclusão social, as políticas sociais, as políticas de educação e de formação, as culturas populares, a reabilitação de pessoas com deficiência e as metodologias de planeamento e avaliação. É autor de livros, capítulos de livros e artigos de revista e outros títulos (mais de uma centena de títulos) publicados em Portugal, Reino Unido, Alemanha, França, Espanha, Itália, Brasil e Angola. Apresentou comunicações e Conferências em cerca de duzentos encontros científicos em Portugal e no estrangeiro. Foi Director-Geral do Departamento de Estudos, Prospetiva e Planeamento do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social (1998-2001), Director-Geral da Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação (2006-2008) e Presidente da Agência Nacional para a Qualificação (2008-2011). Foi membro do Comité de Emprego da União Europeia. É membro do Conselho Nacional de Educação. É um colaborador ativo de associações diversas, de caráter social, profissional e local. Escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990.

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