O encanto e o desencanto da despedida

Às vezes a despedida desencanta. Por exemplo, despedirmo-nos do Colete Encarnado é sempre um pouco desencantador. É dizer adeus à Festa inebriante que a todos nos envolve, e dar início a uma espera até ao ano que vem. Por falar em espera, mas agora num outro sentido, o taurino. Nos últimos anos as esperas e largadas de toiros, esse espaço/tempo excecional (no duplo sentido da grandeza, por um lado, e da rutura com a ordem quotidiana e as suas regras, por outro lado), tem melhorado muito no que respeita à escolha, e consequente comportamento, dos toiros. Mas há coisas a mudar. Nem as pessoas nem os animais merecem duas ou três horas de largada. Toda a tauromaquia assenta na corrida do toiro. Se o toiro pára, e ele não pode fazer outra coisa depois de vinte ou trinta minutos no cumprimento da sua função, pára a Festa. Por isso, agora que temos toiros, falta criar as condições para que eles corram enquanto estão na rua, encurtando drasticamente a duração da largada. Como? Isso são meros pormenores. Primeiro temos de nos pôr de acordo sobre o que é preciso fazer, e depois veremos como fazê-lo (nem é assim tão difícil, garanto).

Outras vezes, porém, a despedida tem muito encanto. Como todos os que estiveram na Palha Blanco na Corrida do Colete Encarnado puderam testemunhar. Despediu-se das arenas o Ricardo Patusco, um dos maiores forcados do seu tempo, e o público vilafranquense prestou-lhe um justo tributo, sentido e emotivo. Como que a dizer-lhe – ” até sempre, forcadão”. Esse foi, para mim, o momento mais alto da parte taurina do Colete Encarnado. Do resto da corrida fica-me na memória apenas mais uma tarde do Grupo de Forcados Amadores de Vila Franca de Xira ao seu nível, um extraordinário par de bandarilhas do João Ferreira (os bandarilheiros andaram em geral acertados) e um curro de toiros com presença e desiguais de comportamento, mas toiros de verdade, a exigir outra vontade (e verdade) dos cavaleiros e outro ofício (que só se ganha a tourear, de preferência gado que, para ter a idade e o peso dos de David Ribeiro Telles, deveria ser picado) do Manuel Dias Gomes.

E agora aí vou ver o Fogo de Artifício, com os olhos já postos em Outubro.

Imagem de arquivo

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Luís Capucha

Sociólogo, professor no Departamento de Ciência Política e Políticas Públicas do ISCTE-IUL e investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, desde 1987. Coordenador do Mestrado em Administração Escolar no ISCTE-IUL. Os principais temas de pesquisa são as políticas de luta contra a pobreza e a exclusão social, as políticas sociais, as políticas de educação e de formação, as culturas populares, a reabilitação de pessoas com deficiência e as metodologias de planeamento e avaliação. É autor de livros, capítulos de livros e artigos de revista e outros títulos (mais de uma centena de títulos) publicados em Portugal, Reino Unido, Alemanha, França, Espanha, Itália, Brasil e Angola. Apresentou comunicações e Conferências em cerca de duzentos encontros científicos em Portugal e no estrangeiro. Foi Director-Geral do Departamento de Estudos, Prospetiva e Planeamento do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social (1998-2001), Director-Geral da Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação (2006-2008) e Presidente da Agência Nacional para a Qualificação (2008-2011). Foi membro do Comité de Emprego da União Europeia. É membro do Conselho Nacional de Educação. É um colaborador ativo de associações diversas, de caráter social, profissional e local. Escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990.

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