Justa homenagem a “ganadero romântico”

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No dia do Trabalhador, que este ano coincidiu com o dia da Mãe, fomos aos toiros a Vila Franca. Apesar do cartel não anunciar uma corrida mista, a que preferimos, existia uma força que nos moveu e que compôs as bancadas da Palha Blanco: homenagear o Senhor Fernando Palha. Confesso que tive pena de não ter visto a praça esgotada. Ele, cuja fama de “ganadero romântico” num mundo dominado pelas ganadarias “comerciais”, ultrapassa todas as fronteiras, merecia.

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Campinos a compor a bancada da Palha Blanco

Foi bonita a homenagem. A coreografia singela, com muita presença do campo, de campinos e da família, recriou no albero vila-franquense o mundo que era o do Senhor Fernando Palha, tão ausente e tão presente nesta praça que ele amava, e em cujas paredes passou a figurar o seu nome. Nada poderia ser mais justo.

A corrida foi entretida. Entregaram-se três prémios. Um ao melhor grupo de forcados, os das Caldas da Rainha. O segundo ao toiro com melhor apresentação, entregue, com alguma polémica, a Canas Vigoroux (o que encerrou a corrida e pesava 570 kgs). Com exceção do primeiro, demasiado fechado de córnea, os toiros tiveram boa apresentação, com destaque para os de Passanha Sobral (630 Kgs, lidado em 2º lugar), Fernando Palha (o 4º a sair da “porta dos sustos” e pesou 470 Kgs) e António Silva (3º da ordem, com 530 Kgs). O terceiro prémio foi para o toiro mais bravo, e recaiu no de Fernando Palha, o que mais transmitiu pelo modo como se empregou na perseguição da montada de António Palha Ribeiro Telles.

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Cartel que integrou a corrida

Coisas de bravo (que para saber se o é teríamos de o ver nas varas) fez também o de David Ribeiro Telles lidado em quinto lugar (545 Kgs), sério e franco na investida, apesar de um pouco tardio na arrancada. O primeiro, da mesma ganadaria (500 Kgs), deveria ter sido sobrero, mas teve de abrir praça em lugar do toiro de Branco Núncio, que se terá inutilizado. Fechou-se em tábuas e dificultou muito a atuação do cavaleiro. O mesmo comportamento, a que costumamos chamar mansidão, talvez ainda mais marcado, teve o toiro de António Silva. Os outros, de Passanha Sobral e Canas Vigouroux, cumpriram bem.

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Quanto aos cavaleiros, António Ribeiro Telles esteve apagado no primeiro, mas deixou no quarto constância do toureio de qualidade que tão bem cala nesta terra, obtendo um triunfo que, seguramente, o levará a continuar a constar por muito tempo dos cartéis da Palha Blanco. O sobrinho, Manuel Telles Bastos, entreteve a primeira parte com a sua melhor lide, ao segundo, estando em plano menor no quinto. Francisco Palha, que lidou os seus dois toiros com apenas dois cavalos, teve alguns apontamentos positivos, que alternou com momentos menos bons.

O primeiro toiro apresentou aos forcados Amadores de Vila Franca de Xira muitas dificuldades, dada a configuração da córnea, que dificilmente permitia ao Vasco Pereira tocar-lhe a cara e fechar-se nela. Pegou à 6ª tentativa, a sesgo e com todo o grupo em cima. Lourenço Palha, neto do homenageado, pegou à segunda e de forma pouco ortodoxa, dado que seguiu a primeira parte da viagem pendurado no pescoço do toiro da ganadaria do avô, tendo depois “trepado” até se colocar na cara. Ricardo Patusco e Francisco Faria pegaram o terceiro e o quinto ao primeiro intento, com boa técnica, emoção, valor e um bom grupo a ajudar. O cabo Francisco Mascarenhas e António Cunha, dos Amadores das Caldas, executaram também pegas rijas (ao segundo e ao sexto) ao primeiro intento, que chegaram bem às bancadas entusiasmadas.

Quando se anunciaram os prémios, tinham passado três horas desde que se deu início à função. À portuguesa… Isso, mais a música que toca por dá cá aquela palha, e o padrão da volta à arena e saudação no centro, independentemente dos méritos de cada lide e de cada pega, são pecadilhos que não conseguimos erradicar das nossas touradas. E é pena.

Luís Capucha

Sociólogo, professor no Departamento de Ciência Política e Políticas Públicas do ISCTE-IUL e investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, desde 1987. Coordenador do Mestrado em Administração Escolar no ISCTE-IUL. Os principais temas de pesquisa são as políticas de luta contra a pobreza e a exclusão social, as políticas sociais, as políticas de educação e de formação, as culturas populares, a reabilitação de pessoas com deficiência e as metodologias de planeamento e avaliação. É autor de livros, capítulos de livros e artigos de revista e outros títulos (mais de uma centena de títulos) publicados em Portugal, Reino Unido, Alemanha, França, Espanha, Itália, Brasil e Angola. Apresentou comunicações e Conferências em cerca de duzentos encontros científicos em Portugal e no estrangeiro. Foi Director-Geral do Departamento de Estudos, Prospetiva e Planeamento do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social (1998-2001), Director-Geral da Direcção-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular do Ministério da Educação (2006-2008) e Presidente da Agência Nacional para a Qualificação (2008-2011). Foi membro do Comité de Emprego da União Europeia. É membro do Conselho Nacional de Educação. É um colaborador ativo de associações diversas, de caráter social, profissional e local. Escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990.

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