O Escuta
Conhecia-o de vista e de alcunha. Era um velho carrejão, da estação dos Caminhos de Ferro, moço de saco, tinha sido já.
Dele toda a gente troçava, do seu corpo bamboleante, do seu cabelo branco, comprido, liso e teso de porcaria acumulada durante anos e anos.
Dormia em qualquer lado, por aí, onde conseguia parar a carreta, em que transportava os volumes que ia buscar à estação e distribuía pelo comércio e pequena industria, em Vila Franca de Xira. Vivia desse trabalho. Comia… quando lhe sobrava algum dinheiro, do que gastava no vinho, na tentativa vã de esquecer a solidão, a miséria e a dor. Chamavam-lhe o Escuta.
Reconheci-o quando entrou pela porta da Igreja naquele dia triste de funeral, curvado de anos e insultos da vida, limpo o fato remendado, as lágrimas rolando ácidas pelo rosto seco e rugoso. Aproximou-se. Da sua boca saíram palavras apenas perceptíveis para mim. Os soluços cortavam-lhas, mas num impulso mais forte e dirigindo-se a quem já não podia ouvi-lo, gemeu:
– Foi o ÚNICO (num grito rouco), o ÚNICO que sempre me tratou por Senhor e pelo meu nome de baptismo!

