Gaibéu por um mês

Maria Pereira

Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos.
Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos.
Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se.
Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo?
Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias
de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração.
Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.
Maria Pereira

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Vou contar a história de um gaibéu por um mês, natural da Beira Baixa. É talvez uma história um pouquinho atrevida, mas é Carnaval, não se zanguem comigo.

Há muitos anos, vivia no alto da serra, no Cabeço da Urra, numa casita humilde, com duas divisões, tendo por baixo a loja do porco e o curral das cabras, um casal e seu filho, sendo este já rapaz dos seus 20 anos que até aí, pelas contingências da vida, isolamento e ausência absoluta de transportes, nunca tinha frequentado qualquer escola.

O nosso rapaz era pastor, única alternativa e profissão possível e, deste modo, ajudava os pais cuidando das cabras e ovelhas que representavam o seu sustento diário.

Apesar de viver no monte, de não ter frequentado a escola, de andar mal vestido, de só tomar banho na ribeira quando esta não gelava, de ter uma alimentação à base de caldo, broa e sardinhas salgadas, um pouco de leite e queijo de vez em quando, o nosso Tónio era um belo moço. Alto, entroncado, pele morena e curtida pelo sol e pela neve, e com uns magníficos olhos azuis profundos e inocentes como ele próprio. Os pais, embora orgulhosos de seu filho, benza-o Deus, que é tão bonito, preocupavam-se com o seu futuro. “Que será dele quando a gente morrer?”; “Irá ficar sozinho aqui no monte?”. Casar não seria fácil, pois pobre e sem emprego ou profissão eu renda, quem o quereria?

Não sabiam eles que havia uma moça, a Martinha, particamente nas mesmas condições, pastora também e que os dois já se haviam encontrado um dia e os olhos dele tinham roubado o sossego aos olhos dela. Sem demora, porque o amor é sempre urgente, o rapaz, depois de comer a sopa de couves da horta e a fatia de pão do jantar, comunicou aos pais:

– Senhor pai, senhora mãe, pretendo o consentimento de vossemecês, pois quero-me casar com a filha do Ti Zé Balha, a Martinha.

O pai até deixou cair a tijela da sopa com a admiração.

– A filha do Zé Balha? E ela quer-te lá!

– Quer, sim senhor! Eu não lhe perguntei, mas vi nos olhos dela que me quer!

– E onde é que tu a viste se nunca sais daqui? – pergunta a mãe, ainda incrédula.

– Pois vi-a tomando banho na ribeira – disse com um sorriso nos olhos – ela até se assustou e foi a correr tapar-se com a roupa…

– E depois? – volta a mãe, inquieta.

– Depois nada, foi cada um recolher o seu gado, que já iam sendo horas…

O que é certo é que o Ti Zé Balha foi chamado mais a mulher. Foi-lhes pedida a devida autorização, chamou-se a moça, todos concordaram e fez-se o casamento.

Os noivos ficaram a viver em casa dos pais dele, cujo quarto ficou para os jovens, e tudo se ajeitou.

É certo que de noite havia uns ruídos estranhos, fora do comum da casa e fora do costume, mas de manhã lá iam os dois, juntos, pastorear os animais, brincando, tomando banho na ribeira, dando largas à sua juventude e vitalidade. Amavam-se de noite e dia e à hora do meio- dia.

Passaram uns meses e os pais do Tóino começaram a notar uma certa palidez e magreza no filho. Apoquentados com o facto, o pai levou o rapaz ao médico.

– Sr. Dr., o meu filho procura a mulher a toda a hora. Ele vê se lhe acode, não pensam noutra coisa!

O médico riu-se:

– Pois que quer você, Ti Manel, eles são novos, têm tempo, gostam um do outro e tudo é tão bom… Deixe-os lá, homem, deixe-os aproveitar enquanto não vêm os filhos!

– Ah, Sr. Dr., mas é que o meu filho está cada vez mais magro e nem cor tem, e eu e a mãe estamos a modos que preocupados não vá ele apanhar uma “trebleculose”!

– Pronto! – respondeu o médico – Vamos pensar em qualquer coisa. Olhe, você não tem alguém conhecido longe daqui lá para Lisboa que possa dar trabalho ao seu filho nem que seja durante um mês? Assim, longe da mulher, não tinha outro remédio senão descansar.

– Eu tenho um cunhado, mas é lá para a Borda-d’água.

– Boa ideia! Fale com ele, arranje quem lhe leve o recado e mande lá o rapaz. Com a mulher, depois se verá.

Assim se fez. O nosso pastor, muito triste, lá foi de “caminete”, de automotora e, por fim, de comboio, até à Borda-d’água, onde o tio o esperava.

Trabalho não faltava, bem duro, o nosso jovem nem tinha tempo para pensar na sua Martinha. As noites eram mais difíceis, mas com o corpo cansado, adormecia no meio da palha e dos companheiros.

O mês custou a passar, mas o tempo nunca se atrasa, e chegou o dia do regresso.

Com apenas meia dúzia de tostões no bolso, o coração apertado de saudades da sua mulher dos seus pais, de tudo, até das cabritas saltando pelo monte, chegou a casa.

Todos o esperavam com saudades e com uma notícia que o deixou muito feliz e meio aturdido: a Martinha estava grávida. Grávida. De pouco tempo, claro, nem chegava a dois meses, mas já tinha os sinais: falta das regras, peitos mais duros e a doer, sempre enjoada. Vinha aí um menino ou uma menina, isso não importava, era preciso era que viesse sãozinho. Depois de jantar, quando ficou a sós com a mulher, esta recomendou-lhe que tivesse cuidado, tinham que ter mais calma, podiam fazer mal à criança, podiam fazer tudo como dantes, mas com mais calma e menos vezes e agora era preciso trabalhar, tratar das cabras para se venderem bem e arranjarem maneira de comprarem o berço e os mais precisos.

No dia seguinte, bem cedo, foi o pastor para a serra tocando as cabritas, escolhendo o melhor local, onde havia mais erva fresca e folhas das árvores, azinheiras, sobreiros, carqueja e tudo o que seja planta.

Pensando, sonhando já com o filho, nem reparou na Martinha que chegou com o almoço. Trocaram um abraço e um beijo, mas ele nem a apertou contra o seu corpo como dantes, com um certo receio mas misturado com muito amor. Ela não quis comer, estava enjoada. Ele ficou com o gado, ela foi para casa.

O tempo melhorara, mas o sol já se tinha posto, chamou as cabras e o chibo para os recolher, mas o chibo pressentiu o cheio do cio das cabritas, já estava na época, e não desperdiçou oportunidade. Correu atrás de uma, mais outra, mais outra, de quantas lho permitiam e nada de ir para o curral.

– Anda, Mocha cabrita, vamos para casa! Amanhã há mais!

Mas o chibo estava de maré e não lhe apetecia ficar por ali.

– Anda, Pata Branca! Corre, Bonita!

Elas corriam, mas vinha o bode a fazê-las parar.

– Vamos lá, depressa! Vamos depressa!

Lá conseguiu guardá-las. Mas mesmo assim, ao fechar a porta, vira-se para o chibo e diz:

– E tu, menino, ou ganhas juízo ou eu mando-te para a Borda-d´água!

 

*Fotografia de Helder Bento

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Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos. Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos. Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se. Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo? Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração. Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.

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