19 de Março – Dia do Pai

Maria Pereira

Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos.
Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos.
Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se.
Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo?
Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias
de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração.
Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.
Maria Pereira

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Eu queria escrever sobre tantos pais que conheço que amam tanto os seus filhos, mas lembrei-me do meu pai. Vieram as lágrimas de saudade e não fui capaz. Deixo-lhes a minha homenagem e o meu abraço.

O Meu Pai

Como mais me recordo da sua figura é daquelas tantas vezes em que se sentava na sala ou na varanda, na sua cadeira de avião – cadeira de madeira de costas altas e inclinadas com apoio para os braços, assim chamada – magro, direito, olhar luminoso, as mãos secas e belas segurando o jornal e sorrindo-me com lábios e aqueles olhos tão azuis e contando-me factos, episódios que me explicava e discutia comigo.

Muitas vezes saíamos a passear e a sua figura alta e esguia não passava despercebida. Sempre de chapéu bem colocado e de gravata preta, pela minha mãe (falecida quando eu tinha apenas três anos), de feições correctas, apesar dos estragos feitos por tantos anos de doença, de luta, de fuga, de tareias na PVDE. Certas tardes, os amigos, entre eles o Torres pintor, o António Silva do 1º de Janeiro, ou outros, por vezes alguém que timidamente batia à porta para pedir um favor, chapéu mole na mão:

– Ponha o chapéu, homem!

– A menina – era eu – dá licença? Precisava de uma carta bem escrita… – para isto ou para aquilo ou para qualquer outro assunto.

– Pois claro – dizia o meu pai – venha cá mais logo, traga os nomes todos escritos, que eu faço isso, sim senhor. Olhe, traga também uma cesta… Sabe, a minha irmã tem aí tanta fruta e assim leva para os seus filhos e não se estraga… Não tenha vergonha, homem, é assim como se fizéssemos um favor um ao outro.

O outro, de voz embargada, só dizia:

– Obrigado, senhor Manuelzinho, muito obrigado!

Pai, anda comigo, vamos passear os dois de braço dado pela rua acima até ao banco do jardim! Pai, vamos sentar-nos, repara na flor vermelha no canteiro ali no lado esquerdo! Essa flor é nossa amiga. Pai, passa a tua mão sobre a minha, porque tu entendes, tu sentes, pai!





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Imagem: Pixabay

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Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos. Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos. Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se. Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo? Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração. Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.

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