Três Reis Magos

Maria Pereira

Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos.
Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos.
Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se.
Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo?
Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias
de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração.
Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.
Maria Pereira

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Nasceu Jesus, o menino filho da Maria e de José. Nasceu numa terra chamada Belém, na Judeia, numa cabana de pedra sobre pedra e troncos de árvore, onde os pastores recolhiam os seus animais durante a noite. Maria amamentava o seu menino, mudava-lhe os paninhos, as fraldas da época, lavava-o depois numa fonte próxima, enquanto José mantinha aceso o fogão e cozia a galinha oferecida por uma sábia velhinha, que uma mulher parida deve comer canja que limpa o organismo e faz subir o leite.

Assim se passaram uns dias. Maria e José, desejosos que o tempo permitisse o seu regresso a casa em Nazaré e havendo sempre quem viesse visitar aquela família, trazer água fresca numa cantarinha, uma pele de ovelha para aquecer o menino, uns ovos ou uns queijinhos.

Naquela altura não existia comunicação social, as notícias espalhavam-se boca a boca e contava-se que certas pessoas tinham sido avisadas durante o sono, por um anjo, que aquela criança tinha sido enviada para salvar o mundo e os homens. A notícia chegou ao oriente, onde existiam vários reis, avisados também em sonhos por anjos. Alguns acreditaram e três deles, Gaspar, Belchior e Baltazar, resolveram ir visitar e honrar o menino, que não saberiam onde se encontrava, se uma estrela grande luminosa não surgisse no céu, atravessando os astros para os orientar. “Uma estrela com cauda”, diziam com um certo receio. Mesmo assim resolveram segui-la. Essa estrela brilhante, como por milagre, foi parar sobre a cabana, na serra gelada. Os reis, perplexos e maravilhados, desceram das suas montadas, os seus camelos, e ajoelharam perante a criança, aquele menino moreninho, de olhos escuros e cabelo em caracóis. Estranharam o olhar profundo e o sorriso, como se soubesse quem o rodeava e o que esperavam dele. Os bracinhos abertos pareciam convidar: “Venham a mim, eu os compreendo e vos amo”. Muito respeitosamente, quase tremendo de emoção, colocaram as suas ofertas, oiro, incenso e mirra, nas palhinhas caídas da manjedoura feita berço. Três pequenos cofres. Não se sabe se o menino deu algum valor a essa riqueza, pois os seus olhos ternos e lindos ora fixavam os seus pais, e estes sempre atentos acariciando-o, ora dirigindo-se para os pastores e pastoras, homens e mulheres simples, carregando um molho de palha seca ou um pouco mais de lenha. Então reparou melhor nos três reis. Parecia que entendia. Luz nos olhos, sorrindo-lhes, como se naquelas pessoas visse representado o poder do mundo. O seu olhar entristeceu. E o menino Jesus chorou. Chorou como se soubesse a dor que viria aos homens, motivada pelo poder e pela riqueza. Só nos braços da sua mãe acalmou o choro e adormeceu.

Os reis iniciaram o seu regresso ao oriente, convencidos que aquele era mesmo o destinado a mostrar a luz aos homens, aos que abrissem o coração.

Imagem: Pixabay

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Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos. Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos. Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se. Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo? Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração. Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.

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