Uma Páscoa com os ciganos

Maria Pereira

Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos.
Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos.
Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se.
Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo?
Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias
de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração.
Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.
Maria Pereira

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Era inverno, frio e chuvoso, alguém batia ao portão da quinta. Foram abrir e um homem já velho pediu para falar com o dono. Ao fundo, no recanto que a rua fazia, viam-se mais alguns homens com características de etnia cigana, morenos, bons de corpo, ar altivo de quem se orgulha de ser o que é. Ao mesmo tempo notava-se um certo ar de desgosto e sofrimento. Levaram-no ao dono da quinta que o recebeu cordialmente perguntando:

– Então o que o traz por cá?

– Senhor – responde o homem – eu sou o patriarca de um grupo de ciganos, homens, mulheres e crianças e não temos onde acampar. Somos vendedores de sedas e outras coisas. Somos pessoas sérias de brio, mas como somos ciganos temos certa dificuldade em ser aceites. Fomos pedir licença para acampar nuns terrenos dum filho do Sr. Dr. S.C., mas não consentiu. Era um olival, ficávamos abrigados, mas como ele nem quis falar comigo, mandou o criado dizer que não queria por lá ciganada…

– E porque vieram ter comigo? – perguntou o senhor da quinta encarando o velho, olhando-o de forma comovente, mas transmitindo e recebendo uma dignidade mútua.

– Perguntado por aí na cidade disseram-nos que os senhores eram diferentes, que não fecham o portão a ninguém, nem têm medo seja de quem for.

“É esperto”, pensou M. Afonso, “mas parece bom homem, vamos ver”, olhando em volta disse:

– Venha comigo – e começou a caminhar pela rua, junto à casa, em direcção à parte agrícola – quantos são? – perguntou.

– Uns vinte e tal – respondeu o velho.

– Que tal lhe parece este coberto? É o que lhes posso arranjar.

O velho olhou. Era uma construção grande, tipo celeiro, utilizada também para guardar alfaias agrícolas, construída em pedra de pé bastante alto em telha-vã, mas com o forro em madeira, o chamado palheiro por onde se subia por uma escada bastante rudimentar.

– Se serve!? É muito bom! Muito agradecido!

– Quando querem vir? Vou mandar dar uma arrumação aqui para deixar mais espaço livre. Podem vir depois do almoço. Mas lembrem-se: se se portarem mal, se beberem, se fizerem zaragatas ou mexerem no que não lhes pertence, não os quero cá. Ponho-os fora no mesmo dia. E assim que vier o bom tempo, fica combinado que vão embora.

– Pode confiar. Os ciganos têm a sua honra. Muito agradecido. Cá estaremos lá para as 3 horas, se puder ser.

– Combinado! – e estenderam-se as mãos.

Quando M. Afonso regressou a casa, contou à irmã, com quem vivia. Ela ficou mais que zangada e em pânico:

– Tu és doido! Uma quantidade de ciganos cá dentro da quinta?! Vai ser bonito quando começarem a roubar e a fazer desacatos! Olhem o que me havia de acontecer?! Ciganos!

À hora combinada, lá estavam, em três ou quatro carroças tapadas com oleados.

Acomodaram-se no coberto, dividiram a casa com peças de tecido penduradas em cordas. E assim foram vivendo, saindo sempre para as feiras próximas onde vendiam os seus artigos.

O tempo foi passando e melhorando as condições climatéricas.

Uma vez por semana, à noite, o grupo reunia-se em frente ao coberto, sentados no chão. As mulheres com a saia comprida, estendida para o lado. O seu homem sentava-se lá, naquele aconchego e assim, com o patriarca no melhor lugar, iniciavam uma reunião em que os seus assuntos eram discutidos e todos ficavam ao corrente. Saúde, trabalho, situações familiares, tudo era esclarecido, ajudado, apoiado.

Enquanto isto, os meninos circulavam por entre todos, rebolavam no chão, brincavam com os adultos.

Antes de terminar a reunião, o respeitado patriarca oferecia a todos uma rodela de chouriço ou coisa muito parecida que cortava com a sua navalha e distribuía à sua volta. Depois disto, acendia um cigarro que passava de boca em boca e era apreciado pela comunidade.

Até que chegou o tempo da Páscoa. Na casa grande faziam-se os preparativos para receber o padre que abençoava a casa, dava a cruz a beijar e levava uma dádiva em dinheiro.

No coberto, os ciganos preparavam também a entrada do portão com flores espalhadas pelo chão e os xailes das mulheres, os “mantom” como elas diziam, em seda bordada, vermelhos, pretos e brancos, fazendo de pano de fundo. Pediram à dona da casa, A. Afonso, uma mesa e uma cruz para porem em cena e assim receberem também simbolicamente Jesus na cruz.

O padre cumpriu a sua obrigação e celebrou-se o domingo de Páscoa como mandam os cristãos.

Os ciganos foram embora dentro de mais ou menos duas semanas, foram à sua vida errante, apátrida, de terra em terra, mas deixaram saudades.

De tudo o que aqui deixo, se visse, Jesus diria “amai-vos uns aos outros” e o povo português acrescentaria “à terra onde fores ter, se for de bom viver, faz como vires fazer”.

Uma Santa Páscoa para todos!

Imagem: Pixabay

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Maria Pereira

Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos. Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos. Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se. Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo? Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração. Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.

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