À espera de largar a emoção
Dos tempos idos em que ainda não havia tranqueiras a proteger os populares e em que os toiros apenas passavam, levados pelos campinos, em direcção à Praça de Toiros Palha Blanco para aí serem lidados, até ao tempo presente em que à passagem dos animais se juntam, empoleiradas nas tranqueiras, milhares de pessoas, pouco, no que diz respeito às largadas, mudou.
A euforia e o medo com rosto de paixão não saem das almas vilafranquenses quando se fala de toiros. Vive-se do Colete Encarnado à Feira de Outubro e da Feira de Outubro ao Colete Encarnado com o nervoso miudinho dos toiros no estômago. Espera-se, prepara-se, lava-se e arranja-se tertúlias com olhos fixos nos animais que serão largados nas ruas à mercê das gentes.
Por mais que os protectores dos animais critiquem e chamem maus tratos às largadas de toiros, os vilafranqueses não as vêem assim. Não as sentem assim. Sabem de um respeito que profundamente nutrem por estes animais. Sabem-no bem e não vêem mal nas brincadeiras com eles. Afinal não há dor infligida a não ser que alguém acabe por sair magoado, toiro ou gente, em pé de igualdade, sem armas e com o fundo a nu.
Desde os primórdios das largadas, quando ainda não eram largadas, mas apenas esperas dos toiros levados pelos campinos até à praça, que os vilafranquenses vivem esta lide como se fosse a última. Foi realmente a última para alguns, homens e toiros que ali, naquele jogo, onde só entra instinto e âmago se entrega a vida nas mãos do outro em troca de uma lide que funde o homem e o animal com a terra e as raízes.
Por muito que muitos não gostem e / ou não compreendam estas tradições, é-lhes tão legítimo esse direito quanto o é para os que gostam e teimam em lidar os bichos como bichos e senti-los das entranhas aos poros.
*Fotografias de Helder Bento


















