Ser um Homem
Há ainda pouco tempo, na Primavera passada, descíamos em Vila Franca, pela Rua Miguel Bombarda, ali próxima do Museu de Arte Sacra, caminhando pelo passeio que fica entre os prédios e os belíssimos abrunheiros que, em boa vizinhança, convivem com os carros aí estacionados.
Nas árvores, os abrunhos já maduros, rosados, lindos e perfumados, faziam-me crescer água na boca.
Reparo então num pequeno grupo de garotos, de dez ou doze anos, uma adolescência a romper na partida da infância. Eram rapazitos modestos, a avaliar pelo aspecto, pela bicicleta reciclada, metade alumínio, outra metade em madeira tosca. Não seriam ciganos (gosto muito dos ciganitos), pois não eram morenos e tinham caracóis castanhos, claros, queimados do sol. Naquele momento eu reparava em tudo isto, mas o que me aliciava eram mesmo os abrunhos, ameixas doces, lá no alto das árvores, onde nem eu nem o meu companheiro conseguíamos chegar. Só os miúdos saltavam e trepavam regalando-se com toda aquela fruta, madura e gratuita.
Adoro estas ameixas, confessei em voz baixa, um tanto gulosa outro tanto triste, por não as conseguir colher. Mas um dos meninos ouviu e logo colheu três belos frutos, desceu e estendeu-mos na sua mãozita. Recebi-os, grata, trémula, beijando os seus cabelos, sem ser capaz de dizer mais que um obrigada, os olhos marejados de lágrimas doces. A cabeça em turbilhão, mostrava-me como aquele garoto, quase maltrapilho, tinha agido como um Homem. Simpático, solidário, amoroso, com uma gota de galanteria e ternura. Como desejei, como desejo, que a vida lhe permita ser sempre assim alguém que, cada dia, nos momentos pequenos ou grandes, mereça o nome de Homem!

