A infância é a nossa Pátria II
Aquilo que de mais sólido, perene e imutável o meu pai me ensinou foram os abraços. Silenciosos, sempre, demorados, sempre e sempre profundos. Aquilo que de mais sólido, perene e imutável o meu pai me ensinou foram os abraços e o significado dos abraços, os abraços e a certeza de haver, nos abraços do meu pai, um amor inabalável e, por isso, a permissão para crescer e a possibilidade de errar.
O meu pai zangava-se com os olhos e com o silêncio das palavras e também com o coração. O meu pai zangava-se de forma rigorosa e sem possibilidade de dúvida. Quando o meu pai se zangava, zangava-se inabalavelmente e contudo – nenhum erro meu, nenhuma falha comprometeu os seus abraços silenciosos e profundos – abraços demorados que me ensinaram a sustentação que vem da grandiosidade da entrega.
Abraçar é tomar o outro nos braços, é abrirmo-nos à alteridade da sua pele, ao contacto com o seu coração, é tornarmo-nos sustentadores daqueles instantes de existir. Abraçar é conceder ao outro a possibilidade de caminhar pela certeza de ser suportado – a certeza de não haver abandono, de não haver solidão, a certeza da possibilidade do caminho, de todo o caminho, porque há braços que o recebem. Abraçar é fazermo-nos de escudo, impormo-nos entre o outro e a sua aridez, entre o outro e a sua solidão, entre o outro e o seu medo. É tomarmos parte de uma dor, de uma alegria, tomarmos parte da existência que acontece fora de nós.
Os abraços transparecem o mais íntimo de nós, expressam o amor que conseguimos, a generosidade que conseguimos, expressam a parte de nós que oferecemos. Ensinou-me o meu pai a supremacia dos abraços – essa forma profunda de ligação. O abraço que é entrega é também sustentação e alegria e por isso é colo, é embalo, é força vital de existir (essa força que me segurava o colchão de água nas ondas imensas do Mar do Pedrogão).
Haverá sempre um momento (muitos momentos) em que a vida nos confronta e nos impele à compreensão de que a existência é, na sua forma mais profunda, um exercício de solidão. Diluo o temor dessa percepção, a fragilidade a que essa consciência me conduz, na possibilidade de poder abraçar – o abraço é partilha e é também companhia. Na sua essência de envolvência e protecção, talvez seja a única verdadeiramente possível.
Ensinou-me o meu pai que a solidão se combate com a vivência do gesto que vida fora nos recebe, que vida fora nos acolhe. É essa a experiência que nos sustenta, é essa a vivência maior – mesmo quando apenas existe na memória.
Que seja este, também, tempo de abraçarmos – que seja tempo de nos abrirmos e de permitirmos em nós o melhor de tudo isso. Não é a protecção que nos transforma – o que nos transforma é a abertura à vida, a abertura aos outros, a abertura a diluirmos as nossas fronteiras internas para darmos passos em frente, além de nós, para lá de nós. Rasgar o véu do desconhecido implica, contudo, a experiência de um amor certo. Ensinar abertura e oferecer amor certo para que seja possível um outro mundo e uma outra vida – a infância é a nossa pátria.
Fotografia: Pedro Rui Silva

