Uma palavra que nos Sirva de Espelho
“A nossa maior crueldade é o tempo. Como um fabricante de armadilhas desajeitado que acaba sempre prisioneiro das engrenagens que produz, também nós inventamos o tempo. Os nossos relógios nunca descansam. Quantas vezes o tempo é a nossa desculpa para desinvestir na vida, para perpetuar o desencontro que mantemos com ela?”
José Tolentino de Mendonça
A questão do tempo coloca-se, no mundo contemporâneo, de forma pungente, quase absoluta. A possibilidade de um progresso científico imperativo e ilimitado, a permanente inovação tecnológica, a ideia de que vivemos para sermos agentes de produção e consumo, suprimem-nos o ritmo biológico, invertem-nos os pressupostos da existência e, apesar de contribuírem para o aumento do conhecimento concorrem, de igual modo, para a morte da sabedoria. A sabedoria vem do lento do tempo e da possibilidade de maturação da experiência, vem do vagar dos sentidos e da paciência da descoberta, vem do repouso do conhecimento e da espera que o conhecimento se revele.
A ideia de tempo vem a par da ideia de futuro, o tempo realizável na possibilidade da acção. Somos, hoje, indivíduos de acção, estimulados à acção e dignificados pela acção. Consideramo-nos vivos quando contemplamos a possibilidade de um futuro, a possibilidade de termos tempo e capacidade para fazermos coisas. O mundo moderno plasmou-nos a vida na acção que ela permite, na realização do fazer. Aquilo que fazemos, o trabalho que executamos, parece totalizar aquilo que somos. Afunilamo-nos nas nossas competências, aumentamos exponencialmente e a toda a hora o nível de exigência sobre o nós e sobre os outros – fazer tudo mais rápido, sempre mais rápido e melhor. E contudo.
Conheci o Patrício três meses antes da sua morte e acompanhei-o nesse tempo outro que é o caminho do fim. Ao 26 anos, doente de uma doença rápida e irreversivelmente mortal, inesperada e avassaladora, o Patrício concedeu-me a possibilidade de tocar o seu íntimo, concedeu-me a sua mão e o seu olhar –expectante e profundo, assustado e profundo, revoltado e profundo – e permitiu-me o silêncio. Não o silêncio perturbador que advém da falta de adequação das palavras, mas o silêncio que advém da consciência de que é possível anular o tempo quando existe verdadeiramente um encontro.
O Patrício estava a morrer e eu estava grávida e visitava-o ao fim do dia ou nos intervalos do meu trabalho, no IPO. O Patrício tinha uma sonda nasogástrica, não comia há várias semanas e via o corpo que fora atlético e robusto, definhar . O Patrício punha os olhos no tecto e fixava o tecto e perdia-se no tecto, escutando a morte que se tecia dentro de si. Quando eu chegava para estar com ele, o Patrício pegava-me na mão e perguntava se eu tinha comido e dizia, invariavelmente “tens de te alimentar”. O Patrício tinha 26 anos e estava a morrer e não comia há semanas e tinha saudades do sabor das uvas e da melancia e pegava-me na mão e dizia-me “tens de te alimentar” – e eu comia uvas e melancia com ele e passava-lhe bocadinhos de uvas e melancia nos lábios. Depois ficávamos em silêncio, eu olhando a janela, sentada na sua cama ou no cadeirão ali ao lado, ele dormitando, talvez.
O Patrício era feito de mar e tinha saudades do mar e eu ía até à praia e trazia-lhe água do mar e areia da praia. O Patrício colocava os pés na água e a areia nas mãos e ficava feliz com esse bocadinho de vida e essa experiência de estar vivo. O Patrício era nadador salvador e antes de morrer quis voltar para a Madeira, sua ilha e sua casa. No dia em que me despedi dele, sentado na cadeira de rodas antes de entrar na ambulância que o levaria ao aeroporto, sabia que era para nunca mais. E apesar de toda a tristeza houve a pacificação de ter estado, de ter sido possível a revelação da intimidade humana no sofrimento, na experiência do cuidado, no silêncio, nas suas mãos que me acolheram e protegeram também.
O Patrício morreu poucas semanas depois, no hospital do Funchal, acompanhado pela família e na companhia da Cátia, o seu amor. Dois anos mais tarde visitei a sua família e a sua casa, visitei o seu quarto decorado com âncoras e bóias e barcos e ossos de baleia. Visitei o seu quarto mantido exactamente como o tinha deixado na última saída para o hospital. Sobre a sua cama, a minha fotografia, anulando a morte e o tempo, mostrando-me, de forma plena, que o maior da existência reside na forma como nos abrimos e nos entregamos – que é na experiência de sermos que reside o nosso maior contributo, a nossa maior oferta.
Abrirmo-nos a ser – pacientes e silenciosos – não é, contudo, o espírito deste tempo – o espírito deste tempo é o da voracidade e do turbilhão, do atropelamento da reflexão e dos sentidos. Saber abrandar o tempo e desacelerar o ritmo, saber descobrir os dias e o momento, é o imperativo deste tempo – que a grandeza do Patrício nos sirva de espelho.
Fotografia: Pedro Rui Silva
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