Do outro lado do espelho

No quarto da casa dos meus avós havia, numa moldura sobre a cómoda, um retrato da minha mãe. O retrato da minha mãe era grande e não bem a preto e branco mas da tonalidade diferente que é a evocação das cores nos retratos antigos. No quarto dos meus avós havia, numa moldura sobre a cómoda, um retrato da minha mãe e foi na demorada contemplação desse retrato que descobri a minha relação com o sagrado.

No quarto da casa dos meus avós havia, ao lado do retrato da minha mãe, sobre a cómoda, uma caixa de música de corda onde rodopiava uma bailarina e o som de uma música bela  – creio que um pouco triste.  Foi na experiência dessa música e na contemplação do retrato da minha mãe, que descobri a minha relação com o sagrado.

A minha mãe teria uns quinze anos, dezasseis anos – talvez – nesse instante captado,  e sorria um sorriso leve. O cabelo era curto e ondulado, o vestido era branco às bolas e havia na minha mãe a expressão de ideia romântica . No olhar da minha mãe, uma certa adequação à vida ou a adequação bastante para uma existência tranquila. No olhar da minha mãe, a força e a vitalidade das coisas que existem, uma certa perfeição –  foi  da consciência da finitude dessa perfeição de existir que descobri a minha relação com o sagrado.  

Ao contrário do medo, que é sempre relativo a alguma coisa, a angústia advém da experiência da antecipação do nada. Foi da consciência da antecipação do nada, da finitude humana, do impensável que é o não-ser – mais no mundo da minha mãe, que descobri a minha relação com o sagrado – o sagrado nessa forma última, transcendente à matéria, ao corpo físico,  o sagrado que consiste em construir com a minha mãe uma relação fundada em laços que contém a imortalidade.

No quarto dos meus avós, o retrato da minha mãe e a experiência tacteada, intuída, de que o problema último, o problema essencial, é posto pelo conflito do amor e da morte.  Talvez porque naquele retrato  um brilho, um certo mistério, talvez porque uma correcta adequação, uma eventual promessa, talvez porque calor lá fora – e a certeza da transcendência para que não morra nunca a minha mãe. O sagrado na minha mãe e a certeza de que a minha mãe não morre nunca, nem hoje, nem sempre, nem nunca mais.

Reside o sagrado na experiência compartilhada, intocável, fundada no amor verdadeiro. Reside o sagrado na beleza da Natureza, na magia dos lugares, no espaço suspenso, imaterial – que é a parte de nós que se eleva quando nos descobrimos por dentro. Reside o sagrado na leveza e nos dias que são sopro, nos dias que são vento. O sagrado no ânimo que habita os homens, no ânimo que habita as mulheres que, ainda que de joelhos, vergados, se erguem sem sucumbir. O sagrado no extraordinário de haver sol e de haver luz – o sagrado no azul celeste do céu. Encontrar o sagrado no passo primeiro para lá do limite – o sagrado no além da dor humana, na ultimidade que é o mistério de cada pessoa. O sagrado na transformação do homem no além de si, na transformação do homem na parte mais elevada de si. Cumprirmo-nos como pessoas talvez signifique viver de tal forma que nos façamos sagrados para alguém – procurarmos na vida os caminhos que nos levem aos outros, encontrando, primordialmente, o caminho que nos encontra. O sagrado na captação da pessoa pela transcendência de um retrato.

As pessoas sem sagrado esvaziam-se e morrem – as pessoas sem sagrado são corpo que sucumbe.

O sagrado que se diz mãe são luzes de tantas cores brilhando para sempre em todos os mundos – mãe em todas as chuvas, em todos os campos, em todos os mares, em todos os peixes, em todos os céus. O sagrado da minha mãe nas cores – tantas cores – de todos os dias.

É no sagrado de existir que a existência se faz realmente humana.

Fotografia: Pedro Rui Silva

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Ana Celeste Mendes

É licenciada em Comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, pós-graduada em Jornalismo pelo Iscte e Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação pelo Iscte, onde se encontra a concluir a tese de Doutoramento em sociologia. Enquanto jornalista, trabalhou sobretudo na imprensa de Saúde e na Imprensa Médica - a Saúde, a ciência e a medicina foram, no jornalismo e na academia, as suas áreas de eleição. Entre 2005 e 2015 foi docente de sociologia da Saúde na Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha. O estudo que desenvolveu sobre a sociedade moderna e as estruturas que lhe dão corpo e a observação da forma como a existência do indivíduo contemporâneo conflui maioritariamente para o cansaço generalizado, a desidentificação e falta de sentido face à existência, levou-a a procurar, juntos das Filosofias Milenares do Oriente, concepções e práticas que, diferentes e distantes das nossas, equilibrem a forma de vida das sociedades ocidentais. Foi na persecução deste objectivo que se Diplomou em Medicina Chinesa da Universidade de Medicina Chinesa Dr. Pedro Choy, dedicando-se, actualmente, à prática clínica da Medicina Chinesa. A prática regular do Yoga Sánkhya veio contribuir para a consolidação da ideia de que, detendo um conhecimento técnico e científico inigualável e a possibilidade de óptimas condições materiais de vida, as sociedades do ocidente necessitam de se equilibrar, através da introdução de um ritmo de vida mais consonante com a Natureza do Indivíduo e do Cosmos. É de acordo com esta visão, seguindo esta tónica, que se dará, através de crónicas semanais, a colaboração com o Gaibéu.

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