Desabafo

Maria Pereira

Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos.
Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos.
Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se.
Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo?
Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias
de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração.
Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.
Maria Pereira

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Detesto a falta de educação, mas adoro a irreverência.

Uma manhã destas, na sala de espera do Centro de Saúde cá da vila, uma jovem mulher bem morena, africana ou descendente, com um bebé ao colo, esperava ser chamada para a consulta. O bebé começou a choramingar, ela embalou-o nos braços, levantando-se, andou um pouco de um lado para o outro, mas o menino não se calou. A mãe então sentou-se, olhou para nós todos, que também esperávamos a consulta, com a maior das calmas, desabotoou a blusa, tirou um seio túrgido e belo e disse-nos:

– Já todos viram uma mama, certo? Pois o meu filho tem fome e eu vou dar-lhe de mamar!

De volta alguns discretos sorrisos, ninguém falou, mas tenho a certeza que todos, homens e mulheres presentes, a aplaudimos em silêncio. E o sol, espreitando na janela, acompanhou-nos.

Imagem: Pixabay

Comentários

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Maria Pereira

Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos. Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos. Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se. Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo? Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração. Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.

One thought on “Desabafo

  • 8 Março, 2016 at 13:16
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    Escreve como poucos, com o peso de cada palavra bem medido, e com uma sensibilidade invulgar.
    Os meu parabéns! É sempre um prazer vir aqui ler as suas estórias!

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