O fato cor-de-rosa

Maria Pereira

Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos.
Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos.
Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se.
Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo?
Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias
de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração.
Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.
Maria Pereira

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Quem se lembra ainda de uma senhora que viveu em Vila Franca de Xira há 50 anos ou mais, alemã, altíssima, magra, loira, de olhos espectacularmente azuis, quase sempre de boina segurando-lhe os cabelos e que utilizava nas suas deslocações pela cidade (então vila) uma enorme e usada bicicleta? Habitava com os pais numa das casas, hoje destruídas, do bairro Padre Moniz.

Eu lembro-me, como se fosse ontem. Pintora de grande valor, mulher lutadora, simples e afável!

No ano de 1957, eu morava também em Vila Franca e via-a, na rua, numa loja, caminhando pelo mesmo passeio.

Ocasionalmente, encontrei-a e encontrámo-nos. Sem mais, apesar de um certo preconceito que sempre senti em relação aos alemães, fiquei encantada com os seus modos educados, a sua roupa ultrapassada no tempo, na moda e no uso, mas vestida com bom gosto, encantada sobretudo com aquela força de carácter que se nota e se revela nas mais pequenas atitudes. Começámos a falar de banalidades, mas rapidamente nos entendemos e nos fizemos amigas. Amigas mesmo, daquelas que nunca se esquecem, mesmo quando partem para um lugar de onde não se volta mais.

Eu era quase uma garota e aquela senhora, que tinha sobrevivido a uma guerra, fascinava-me. Contou-me que tinha sido “bombeiro”, tentando salvar pessoas e coisas das bombas e dos incêndios. Disse-me que muitas vezes ela e os seus companheiros procuravam as poças de água para se aquecerem, quando em volta tudo era neve. Que tinha vindo para Portugal com os pais, fugindo dessa Alemanha destruída e ensanguentada.

Casara com um militar português, mas o casamento não dera certo.

Conheci os pais, um casal encantador, de uma educação e cultura fantásticas. Tinham ficado sem casa, sem trabalho, quase sem vida.

O pai, apesar da idade – devia rondar os setenta anos – conseguira um emprego modesto nos serviços administrativos dos Caminhos de Ferro. O Padre Moniz arranjou-lhes uma casinha agradável, de renda modesta. A minha amiga Marianne dava explicações de francês e pintava, pintava belos quadros, com muita arte, que só uns anos mais tarde foram reconhecidos como tal.

Convivíamos bastante, a minha amiga, a minha família, os pais dela, e uma outra amiga comum, uma jovem de grande coração que era uma costureira extraordinária como nunca conheci outra. A minha querida amiga Jesuína!

Sabíamos das dificuldades da família, e oferecíamos-lhes pequenos mimos que, mais do que o valor económico, eram isso mesmo, mimos. Um bolo que uma de nós fazia, uma fruta da época, um peixe fresquinho…

Uma vez tive a possibilidade de poder dispor de uns metros de malha, para confecção de vestuário, em tom de rosa velho, muito bonito. Falando com a Jesuína resolvemos oferecer-lhe um vestido e um casaco feitos à medida. Eu dava a malha, ela o feitio. Não podia ser feito em segredo por causa das medidas, mas foi quase. Com a malha cor-de-rosa e o talento da Jesuína, o vestido simples, clássico, e o casaco a três quartos ficaram uma beleza.

Fomos a casa levar-lho. A nossa amiga Marianne vestiu-o, olhou-se no espelho, de olhos brilhantes e emocionada, comentou:

-É lindo, eu gosto muito, “obrrigada”, é o primeiro fato novo que visto desde há 20 anos. “Obrrigada!!!”

E envolveu-nos às duas no mesmo abraço.

 

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Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos. Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos. Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se. Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo? Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração. Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.

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