Por desporto

Maria Pereira

Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos.
Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos.
Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se.
Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo?
Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias
de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração.
Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.
Maria Pereira

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Naquele verão de 1939, num domingo em que o calor era tanto que nem se ouvia gorjeio de ave, murmúrio de folha ou ranger de carro de bois. Apenas o sussurro das águas correndo, o sussurro inconfundível do rio Cávado, largo e profundo, com suas margens arborizadas e de vez em quando atravessado por uma pequena ponte.

Justamente nesse domingo, ali se realizava uma regata entre vários clubes fluviais: Porto, Viana do Castelo, Esposende, Barcelos, entre vários outros.

O de Barcelos, Clube Fluvial Vasco da Gama, constituído por um grupo de jovens entusiastas, treinados por M. Afonso, na força e pujança dos seus 39 anos, que obtivera já um número considerável de medalhas, quase todas primeiros prémios, como nadador, remador e timoneiro. Era precisamente como timoneiro que M. Afonso, imbuído da sua enorme vontade de vencer e dar mais uma taça ao seu clube, orientava o seu barco e os seus companheiros.

A regata estava no seu auge!  Cada clube, cada barco esforçava-se por dar o seu melhor numa luta de sã competição desportiva.

Era o momento decisivo, ou quase. Barcelos ia na frente, com uma distância visível do clube que o seguia, o de Viana do Castelo, que tentava com todas as suas forças ganhar melhor posição.

Nesta altura, aconteceu que o Porto, inimigo figadal de Viana e que seguia praticamente a seu lado, numa atitude desesperada, virou a rota do seu próprio barco, atravessando-se entre os dois primeiros já referidos e impedindo Viana de atingir a sua meta.

Equipa de canoagem do Clube Fluvial Vasco da Gama
Equipa de canoagem do Clube Fluvial Vasco da Gama

Venceu Barcelos! Em segundo lugar ficou o Porto, em terceiro Viana do Castelo, depois Esposende, seguindo-se todos os outros.

Ora nesse tempo o desporto era uma actividade lúdica, sem fins lucrativos, que se praticava “por desporto”, pode dizer-se.

Os clubes eram constituídos por pessoas que, fosse qual fosse o seu cargo ou estatuto, eram boas ou más, honestas ou desonestas . Na sua maioria boas e honestas, procedendo como tal, maioritariamente bem.

Terminada a regata houve, com a singeleza da época, a entrega dos prémios. A Taça de Honra, primeiro prémio para Barcelos!

Não! O também director do Clube, M. Afonso, pediu ao júri um momento de atenção e declarou: “Exmos. Senhores, não se sente o Clube Fluvial Vasco da Gama, com verdadeiro direito e sentido de justiça recebendo este prémio, pois foi cometido um ataque vergonhoso a Viana do Castelo, pelo clube do Porto, conforme foi observado por centenas de apoiantes de todos os clubes, ao longo do percurso. Nada nos garante que Viana do Castelo não seria o vencedor, e por essa razão peço, em meu nome pessoal e no dos meus companheiros, que a Taça de Honra desta regata seja entregue ao Clube Fluvial de Viana do Castelo!”

Os bravos, as ovações, os abraços, de um lado, do outro a frustração e a raiva.

Era assim o Desporto em 1939!

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Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos. Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos. Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se. Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo? Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração. Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.

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