Joaquinzão

Maria Pereira

Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos.
Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos.
Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se.
Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo?
Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias
de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração.
Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.
Maria Pereira

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Numa tarde quente de verão, estava eu sozinha,  recentemente viúva, num supermercado qualquer aqui próximo, cheio de gente, quase contendo a respiração para não me envenenar com aquela poluição de gente vazia.
Havia flores! Escolhi duas rosas vermelhas, bem vermelhas como a minha dor. Um espinho arranhou-me o braço.  Sentia-me  inconformada com a vida, mas sobretudo com a tal gente, na sua maioria sem ideais, sem interesse pelos direitos humanos, ou
outros, consumidores do necessário e do supérfluo. Ou serão os adaptados, os que tem juízo, e eu uma tresloucada?
Pretendia comprar um pacote de leite, só isso, pois a minha própria subsistência me obrigaria a sair à rua, a regressar no dia seguinte para comprar outra coisa qualquer, com a solidão pendurada no meu braço como uma amiga inválida.
Mas eis que, de repente, um homem enorme, cabelo já muito grisalho, vestido com uns calções e uma camisola decotada, sem mangas, mostrando uns braços fortes e musculados de quem trabalha, me envolve num abraço apertado. Olho-o perplexa e, reparando na minha admiração…

– É a D. M….. não é? Eu sou o Joaquinzão!
Nesse momento, vida, solidão, ideais, tudo desapareceu. Só vejo uma casinha, ali, por trás da Quinta das Areias. Lá dentro um jovem ainda na casa dos vinte anos, trabalhador rural, triste e ansioso, a sua mulher igualmente jovem, deitada numa cama, as faces cavadas pela doença, as olheiras negras e fundas. (Cancro no útero). Como vejo ainda a casinha limpa, três crianças pequeninas brincando em sossego.
A custo consigo articular:

– Como está, o que tem feito, onde vive, os seus filhos?

– Fui p’rá  América, trabalho lá , casei oura vez, já sou avô.

E abraçando-me novamente , nossos corpos soluçando em uníssono:

– Mas lembro-me bem da senhora, todos os dias, todos, ia dar as injecções (era morfina) para as dores à minha mulher, à minha falecida mulher. Ia sempre. Com a menina P… . Que tempos! Só me restaram os filhos.

Com novo abraço, obrigado por tudo, obrigada por se lembrar de mim, disse eu. Sorrimos os dois, falámos dos nossos percursos mais recentes, felizes, sim, felizes por nos termos encontrado. Depois…  despedimo-nos e retomámos as nossas vidas. Ele regressando lá para as Américas, eu ali naquela hora reconciliada comigo e com os outros.
Quando o passado se guarda mais no coração que na memória, as nossas próprias angústias ficam reduzidas.
Um enorme abraço, Joaquinzão! Seja feliz e até sempre!
Deixaram de ser hostis os espinhos das rosas.

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Maria Pereira

Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos. Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos. Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se. Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo? Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração. Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.

One thought on “Joaquinzão

  • 3 Novembro, 2015 at 18:42
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    Sempre tão elegante! Em tudo! Na poesia dos passos, no olhar carinhoso, na voz encantadora que dá colo, e também na certeza das palavras. Aquela certeza que deixa tudo simples, morno, cru. Obrigada por este momento!

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