Para os meus amigos Bombeiros da Castanheira

Maria Pereira

Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos.
Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos.
Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se.
Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo?
Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias
de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração.
Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.
Maria Pereira

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Carta, vai onde te mando e conta aos Bombeiros esta minha gratidão que vibra ainda dentro de mim como os últimos acordes de uma música inesquecível

Mas eu conto: Há perto de trinta anos existia na Castanheira, mais propriamente na Quinta dos Anjos, uma pequena fábrica de fatos-de-banho e artigos de praia, confeccionados em licra e outras matérias sintéticas.

No corte das peças saíam bocadinhos desses tecidos considerados como desperdício e que eram guardados em sacos de plástico numa arrecadação, distante da fábrica talvez uns dez metros até atingirem uma quantidade justificável para serem vendidos e aproveitados para tapetes rústicos.

Ora, numa tarde quente de Julho (faziam quase 40 graus), ia adiantada a tarde, e o pessoal da fábrica, quase totalmente  mulheres da Castanheira, já tinha saído para as suas casas e famílias, quase correndo pela estrada, certamente desejosas de descansarem um pouco e se refazerem do calor e desse cansaço.

Eu, com uma das minhas filhas e os seus dois meninos, tínhamos também regressado a casa, ali a uns escassos metros da fábrica.

De repente, não sei bem porquê, súbito golpe de vento escaldante …… olhei para trás. Um grito agudo, enorme, sai da minha garganta. Fogo! Fogo! Fogo na arrecadação! Ai a fábrica! Com tanto material dentro! O primeiro impulso foi resguardar as crianças e chamar os Bombeiros, cujo quartel era a pouco mais de 500 metros. O telefone estava impedido, azar, e não havia nenhum carro na quinta. A minha filha gritou: “Eu vou lá!”, correndo como louca estrada fora. “Toma conta dos meus filhos!”. Estes, como por milagre, estavam serenos, com receio, claro, mas confiantes em mim e na mãe. Ainda fico arrepiada quando me lembro disto. Eu estava a dominar o pânico, pelo menos a tentar, mas quase desvairada.

As chamas saíam pelas janelas do barracão, que o fogo quebrava. Altíssimas! Por detrás disto havia um pequeno pinheiral e as pontas dos pinheiros já se viam a arder.

O meu coração quase rebentava de aflição!

Talvez quinze minutos depois chegaram os Bombeiros e a minha filha. Deixei as crianças com a mãe e corri para junto deles implorando: “Salvem a fábrica! Salvem a fábrica!”

Entretanto, algumas funcionárias da pequena empresa tinham regressado ao aperceberem-se do fogo. Havia até um tanque cheio de água e hei-las de baldes na mão, a ajudar os Bombeiros. Eu continuava a gritar “Salvem a fábrica! Salvem a fábrica!”. Os Bombeiros, conhecedores, rápidos, seguros, fazendo o seu trabalho com e por amor, enquanto nos diziam: “Isto vai, tenham calma, isto vai!”. E foi. Não sei quanto tempo durou o fogo. Eu ouvia ainda palavras soltas: “Água!”, “mangueira aqui!”, “contra fogo!”.

Uma imensa fumarada negra mostrava que ardera o barracão mais meia dúzia de pinheiros. Mas não chegou à fábrica!

Como aconteceu?, perguntaram-me, quem vinha aqui? Só a empregada que trazia o desperdício. Todos os dias. Perante a minha perplexidade explicaram-me que aqueles tecidos, com o calor que estava e uma ligeira fricção dos chinelos, passando por cima, podiam atear uma faísca e originar um fogo como aquele.

Nunca escrevi sobre isto, nem em carta aos Bombeiros, nem de outra forma qualquer. Só que a cada dia que passa, a cada ano, este de forma tão triste, pelo horror que se tem vivido neste país, com tantos fogos, tantas mortes, muitas vezes sem deixarem os Bombeiros trabalhar como eles sabem, sinto ainda mais funda e vibrante a minha gratidão e a minha simpatia pelos Bombeiros da Castanheira do Ribatejo e de todo o Portugal.

Obrigada, Bombeiros, que a vida vos proteja e ajude na vossa missão de ajuda.

Para todos, o meu enorme e grato abraço!

Imagem: Pixabay

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Sou Maria Pereira, velhota do Minho, residente por Vila Franca há cerca de sessenta anos. Sou uma mulher muito rica, de afectos: tenho cinco filhos, oito netos e oito bisnetos. Conheço muita gente e muitas histórias de vida, episódios e factos, que, (penso eu) é pena perderem-se. Um dia, quando eu partir definitivamente, levo-os comigo? Não gostaria que assim fosse, por isso, a pouco e pouco, atrevo-me a contar as minhas memórias de outras gentes, algumas em que, por isto ou aquilo, me envolvi e que me ficaram no coração. Pela emoção, pelo carinho, pela raiva, pela impotência. Algumas apenas por que tiveram graça.

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