Quinta e Palácio de Subserra: da memória à actualidade

Rui Brito Fonseca
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Num destes finais de semana quis o acaso que fosse terminar o dia num dos Fins de Tarde em Subserra, para assistir a um pequeno concerto de jovens músicos.

Há mais de 25 anos que não visitava a Quinta de Subserra, onde cheguei a passar algumas férias de verão, organizadas pelo município. Foi com um misto de alegria e tristeza que o fiz!

Alegria pelo facto de poder rever um espaço que faz parte das minhas memórias de infância e adolescência. E tristeza por verificar que a quinta se encontra mal tratada e degradada, apagando da minha memória a imagem de sumptuosidade e beleza que havia retido.

Os velhos e sumptuosos salões seiscentistas encontram-se cheios de rachas e as humidades alastram pelas paredes de um palácio que outrora foi belo e imponente. Os tanques de rega, onde nos banhávamos nos verões de há um quarto de século, encontram-se agora degradados e sujos, sem o brilho de antanho. Do mesmo modo, os jardins de traça geométrica e a fonte rocaille perderam o seu encanto e a sua função primordiais.

De facto, o solarengo palácio do século XVII com uma vista fabulosa sobre o Tejo e a vila de Alhandra, fruto de uma dinamização débil, apresenta já as enfermidades estruturais, decorrentes da insuficiente manutenção.

É pouco compreensível que a autarquia tenha deixado chegar aquele imóvel a um tal estado de degradação e subutilização. Ao que parece, o nobre palácio e jardins apenas são utilizados para hospedagem e aluguer para eventos. Ou seja, para além da produção local de vinho (com adega, lagar, laboratório enológico e sala de provas), a Quinta Municipal de Subserra está entregue à eventualidade e aos caprichos do mercado.

Todavia, um espaço como aquele tem todas as potencialidades para poder ter uma utilização mais regular, capaz mesmo de gerar receita que permita uma melhor manutenção do mesmo. Por exemplo, os múltiplos espaços do palácio poderiam ser aproveitados para residências ou ateliers de artistas, com espaço para exposições e eventos culturais, fomentando e dinamizando a produção e fruição cultural no concelho, aglutinando a oferta cultural do norte do distrito de Lisboa. De modo a melhor potenciar as suas instalações de produção de vinho, também poderia ser um espaço de divulgação e comercialização de produtos regionais, animados por eventos gastronómicos (provas de vinho, jantares vínicos, etc.), integrado em rotas gastronómicas regionais e nacionais.

Numa outra perspetiva, a dimensão do palácio e dos seus jardins também se apresentam como um espaço interessante para a instalação de uma incubadora de empresas ou um espaço de co-working municipal, com salas para reuniões, congressos e mostras empresariais. Desta forma, a Quinta poderia tornar-se num espaço capaz de dinamizar a economia e o emprego no município, nomeadamente, entre os mais jovens.

De facto, as potencialidades da Quinta e Palácio de Subserra são imensas, tornando ainda mais inexplicável o estado de degradação em que se encontra. Para a realização das suas múltiplas potencialidades importa que a autarquia se abra mais à população, desenvolvendo iniciativas conducentes a uma real utilização daqueles espaços, capaz de gerar ganhos para o concelho e para a população.

Pela minha parte, gostaria que o próximo quartel de vida desta Quinta e Palácio fossem marcados por uma fase de desenvolvimento e abertura ao concelho – como na minha infância e adolescência -, quando dezenas de jovens (nacionais e estrangeiros) usufruíam daquele espaço e dinamizavam a economia e a localidade.

*Fotografia de Helder Bento

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Rui Brito Fonseca

“Expatriado” – no sentido em que está fora do seu destino de nascimento - da minha cidade há mais de uma década por opção, mas Vila-franquense por nascimento e convicção, sou um apaixonado pela cidade (onde me fiz gente) e pelo rio que a constrange. Doutorado em Sociologia e com um percurso superior a 10 anos na investigação científica, sou docente no ensino superior e consultor. Mais que tudo, é o prazer de comunicar e a necessidade de exprimir conhecimentos e interpretações das realidades quotidianas que me fazem abraçar este projecto. Espero ser útil…

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