A Primeira Dama e as outras…

Rui Brito Fonseca
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Somos um país de títulos!

Apesar de a Monarquia ter dado lugar à República há mais de 100 anos, continuamos a ser um povo que adora títulos. Temos títulos para todos os gostos: o Doutor, o Dr., o Engenheiro, o Arquitecto, o Sr. Professor… e tantos outros que são utilizados no quotidiano sem que tenhamos a consciência plena da sua utilização. O nível de utilização de títulos na nossa República é tão natural que, a este nível, mais parece que a Monarquia continuou.

O provincianismo existente em Portugal é tão profundo que há até quem se incomode e ofenda por não ser tratado por um título antes do seu nome. Talvez sejam reminiscências de uma modernidade tardia e de significativas mudanças estruturais na economia e sociedade portuguesas, em menos de 50 anos. De facto, neste espaço de tempo, passámos de um país de carroças e agricultores, para um país de autoestradas e serventes.

Na Presidência da República já nos habituámos à existência de Primeiras Damas que não são sufragadas por ninguém, mas que são pagas por nós todos. No quadro das despesas da Presidência da República, pagamos as deslocações, ajudas de custo e assessores de figuras que não nos representam.

Normalmente, as denominadas Primeiras Damas acompanham os Presidentes da República pelo país, onerando o erário público em largos milhares de euros, não acrescentando nada à vida política nacional. Para além disso, entretêm-se em actividades “para senhoras” como sessões de poesia, chás, actividades caritativas e outras acções igualmente relevantes, socialmente e politicamente.

Como se não bastassem estas actividades de questionável importância social e política, as Primeiras Damas têm um papel de acessório do Presidente, colocando a mulher como um elemento secundário no contexto da República. Esta subalternização da mulher reproduz uma ideia negativa da mulher, compaginável com ideias longínquas da democracia e da própria República.

Volvidos 42 anos sobre a democratização do país, continua a parecer estranho que as mulheres aceitem tal posição de adorno do seu Presidente da República, quando a Constituição da República defende a igualdade de género.

O equívoco democrático que é a existência da posição de Primeira-Dama, apenas continua a existir, porque na nossa democracia ainda não houve lugar à eleição de uma mulher Presidente da República.

Pergunto-me por vezes, na hipótese de ser eleita uma mulher Presidente da República, se o seu marido ou companheiro aceitaria ser o Primeiro Cavalheiro. Perante o quadro eleitoral actual, com mulheres a concorrerem à Presidência da República, estamos perante essa possibilidade.

Seria interessante ver o que aconteceria!

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Rui Brito Fonseca

“Expatriado” – no sentido em que está fora do seu destino de nascimento - da minha cidade há mais de uma década por opção, mas Vila-franquense por nascimento e convicção, sou um apaixonado pela cidade (onde me fiz gente) e pelo rio que a constrange. Doutorado em Sociologia e com um percurso superior a 10 anos na investigação científica, sou docente no ensino superior e consultor. Mais que tudo, é o prazer de comunicar e a necessidade de exprimir conhecimentos e interpretações das realidades quotidianas que me fazem abraçar este projecto. Espero ser útil…

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