Crianças incapazes

Hoje em dia, tenho para mim, que se protegem demais as nossas crianças. Entendo quando dizem que os tempos são outros. Que anda por aí muito maluco e depravado mas ainda assim, questiono-me se não as estamos a proteger demais e a fazer destas crianças, adultos incapazes.

Em terras de África, vemos crianças de pé descalço a brincar pelas ruas sem se preocuparem com os perigos inerentes e por aqui, meus amigos, são muitos os perigos inerentes, não muito diferentes daí.

Claro que poderia referir  a  maior ou menor despreocupação por parte dos pais, a diferença de culturas e valores ou até mesmo o facto de sermos todos simplesmente diferentes. Mas, o que me leva a questionar se não estamos a proteger demasiado as nossas crianças, é olhar para a maioria das crianças que por aqui vou convivendo e perceber em cada uma, uma vontade de fazer, de arriscar, de ir mais além sem medos ou restrições. E que bom que é sentir essa autonomia, esse querer.

O que me leva a questionar se protegemos demasiado as nossas crianças ou não, é perceber que muitas são aquelas que nem as deixamos vestir sozinhas ao passo que outras, carregam nos braços a responsabilidade de proteger o irmão mais novo, de ajudar o pai ou a mãe ou simplesmente a responsabilidade de chegar são e salvo a casa. Enquanto que umas só se preocupam com a bateria do tablet ou com a prenda que vão receber, outras preocupam-se com o peso de outras responsabilidades. É uma questão de protecção da nossa parte. Entendo. Mas não estaremos a levar essa protecção excessiva a um nível em que, um dia,  vai acabar por se transformar em negligência passiva?





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Tenho para mim que vamos acabar por criar crianças incapazes e inseguras, completamente dependentes dos seus pais ou familiares.

Por aqui, vejo crianças que carregam outras crianças ao colo e às cavalitas, que se ajudam e protegem umas às outras, em contraste com aquelas que não necessitam de solicitar ajuda porque têm-na como adquirida. Os pais acabarão por resolver. E no dia em que faltarem os pais? Terão os irmãos esse sentimento de partilha e sacrifício pelo outro? Terão os filhos únicos capacidade para resolver os seus próprios problemas e carregar com o seu próprio peso?

Tenho para mim que se protegem demais as nossas crianças.

Imagem: Pixabay

Ana Paes

"Coração maior, gosta das manhãs. Irrita-se com a incompetência, mas dedica a sua vida a acabar com ela. Tira, dos sorrisos das crianças, a força que a faz levar tudo à frente. Correcta, honesta, franca, de sorriso fácil. Quem a conquista, jamais a perderá." - SUSANA DINIZ Ana Paes é educadora de infância e professora de música. Escreve também aqui: Os filhos dos outros

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