A Lenda de S. Martinho
Diz o povo que quem conta um conto, acrescenta um ponto, e como as lendas não passam de contos, herdados de geração em geração, por vezes não são exactamente iguais, dependendo do lugar e da pessoa que os transmite.
Eu vou contar uma versão que corre nas Beiras, por entre as serras Amarela e do Açor.
Saíra pela madrugada gélida e cinzenta, o soldado Martinho, no intuito de ir à caça e levar para si e os companheiros uma peça que lhes servisse de jantar naquele Novembro já tão agreste. Montado no seu belo cavalo, também cinzento, para melhor escapar à visão agudíssima dos animais que regressavam aos seus refúgios, tocas, ou buracos enormes onde se escondiam, cavalgou por entre as árvores, aconchegando-se nas suas roupas, sobretudo na capa feita de peles de coelho bravo, quente e acolhedora.
O frio era intenso e a chuva caía tocada pelo vento, enquanto, um pouco mais longe, uma forte trovoada se anunciava.
Caça, não existia nenhuma ali naquela hora. Os pobres bichos, sobretudo os javalis que procuram o alimento durante a noite, tinham desaparecido com os seus filhotes.
Cheio de pena, o cavaleiro, quase frustrado pela saída inglória, resolveu regressar ao seu posto, nos domínio do Rei, seu senhor.
Devagar, deu a volta ao cavalo, e então, só então, reparou num pobre mendigo, caído no chão, quase morto de frio, coberto apenas com velhos andrajos, tendo a seu lado um pequeno molho de lenha, apanhada do chão, talvez para fazer uma fogueira e se aquecer. Martinho ficou com o coração apertado, olhando para aquela cena.
Ele quente e confortável, envolto na sua capa de peles, e o velho ali, quase moribundo.
Consciente dos seus actos, retirou a capa dos ombros, agarrou a espada que trazia à cintura, e rapidamente cortou-a pelo meio. Colocou uma parte sobre si próprio e a outra sobre o mendigo. De seguida, foi ao seu alforge, preso no cavalo, onde havia uma cabaça com vinho e um naco de pão e fez com que ele ingerisse um pouco. O pobre homem abriu os olhos e muito devagar, foi-se recompondo. Martinho, condoído, pegou nele ao colo e delicadamente colocou-o no cavalo.
“Abençoado seja, Senhor! Deus lhe pague” – disse o homem. Nesse mesmo instante, como por milagre, a cor do céu mudou. O cinzento desapareceu, a chuva parou, o ar ficou morno e o sol, doirado e lindo, iluminou serras e penhascos. Parecia Verão!
O certo é que, por vontade e milagre, ou não, de S. Martinho, todos os anos, a 11 de Novembro, mais dia, menos dia, o bom tempo com sol e calor passa pela serra e ilumina tudo e todos. É o verão de S. Martinho!
Quanto ao resto, a água-pé e as castanhas, é só coincidência, acreditem.
*Fotografia de Helder Bento

