Espera por mim

Com alguma facilidade podemos concluir que quase tudo na vida se resume a uma questão de tempo, ou melhor, à falta dele. Todos assumimos que a vida passa a correr, que o tempo não chega e que é urgente melhorar a qualidade do tempo e o que fazemos com ele. Mas afinal, que força é esta que nos move na correria das nossas vidas?

O facto é que, de uma forma ou de outra, a falta de tempo serve de desculpa para qualquer atitude, opinião ou decisão. E o que, pessoalmente, me choca, é que essa falta de tempo sirva de pretexto para uma completa demissão do papel dos pais na educação dos seus filhos.

Cada vez com maior frequência, os pais não são as pessoas que passam mais tempo com os seus filhos. Uns porque efectivamente não conseguem, outros porque, na realidade, não querem. Mas, seja qual for o motivo que os move a camuflar esta responsabilidade que é só deles, (dos pais com ou sem tempo), “entopem” os seus filhos com actividades e mais actividades, colocando nos ombros de cada uma das crianças um peso e uma responsabilidade que certamente não estão aptas a assumir. A criança avança assim num tempo cheio de tempos que não são os dela. Não sou nem nunca serei contra as actividades, até porque todo o desenvolvimento da criança é o resultado das trocas que se estabelecem, se desenvolvem, se diversificam e finalmente se estruturam e se organizam através da acção. No entanto, o resultado do excesso dessas actividades durante horas ao longo da semana está à vista de todos. É o insucesso escolar, a indisciplina, a desmotivação. A completa falta de educação com que nos deparamos num grande número de crianças. É a impaciência e a intolerância. É o materialismo e o consumismo como forma de equilibrar a falta de afectos. São crianças sem tempo para o serem.

Os pais vivem numa roda constante e fazem dessa roda o centro de vida dos seus filhos. São pais e filhos envolvidos numa teia de stress, que impede os filhos de viverem a infância, transformando-os em adultos precoces. Pequenos adultos sem regras. Sem orientação adequada. Sem afectos e, sobretudo, sem fantasias. Sem tempo para não fazerem nada e simplesmente sonhar.

Os pais vivem numa luta desenfreada para que os seus filhos sejam os melhores? Mas os melhores em quê? Na ginástica? Na escola? Na natação? No ballet? Para quando uma criança com tempo para ser criança? E um pai ou uma mãe com tempo e vontade de terem tempo para serem pais?

 

Haverá um tempo em que já não se ouvirão as portas a bater, nem haverá brinquedos na escada, nem marcas de dedos na parede. Pegue no comando e desligue a televisão. Leia uma história. Brinque. Não se deite na cama ao fim de um dia de trabalho a desejar que a semana passe depressa, o seu filho está deitado no quarto ao lado à espera que os dias não passem assim tão depressa e a “rezar” para que fiquem só mais um bocadinho com ele. Pare. Escute. Olhe para o seu filho porque amanhã ele já não estará à sua espera no quarto ao lado.

Há que simplificar a nossa vida, recuperar o controlo sobre ela antes que a alteração das formas tradicionais de família, a indefinição de valores culturais, se acentuem cada vez mais nas nossas vidas e marquem de uma forma decisiva as crianças deste século.

Não voe tão alto, nem ande assim tão depressa, porque a criança que tem ao seu lado há muito que grita: espera por mim.

*Fotografia de Helder Bento

Ana Paes

"Coração maior, gosta das manhãs. Irrita-se com a incompetência, mas dedica a sua vida a acabar com ela. Tira, dos sorrisos das crianças, a força que a faz levar tudo à frente. Correcta, honesta, franca, de sorriso fácil. Quem a conquista, jamais a perderá." - SUSANA DINIZ Ana Paes é educadora de infância e professora de música. Escreve também aqui: Os filhos dos outros

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