A caneta de tinta permanente
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A caneta de tinta permanente teimava em não deixar rasto. Quase me arrancava sentimentos de raiva e frustração, pela falta de poder de controlo de comando do aparelho. Carreguei com vigorosa força, controlada, porém, quase danificando a parte essencial e indispensável à escrita, mas a tinta não corria, teimava mesmo em não correr. Passei o dedo indicador pela língua, salivando-o, (um velho truque de um não menos velho amigo que escrevia cartas e requerimentos de papel azul de trinta e cinco linhas aos amigos e conhecidos que o ajudavam a sobreviver), tendo depois corrido o aparo sobre o mesmo, mas a tinta continuava a teimar em não assomar ao bico. Após algumas sacudidelas, lentamente, vejo afluir, timidamente, o tom de azul, e já preenchendo todo o aparo, começou a ajudar-me a moldar as letras que compunham as palavras, que também saíam uma a uma, como quem conta-gotas. Não pela falta de vontade mas pelo cansaço do uso de um vocabulário pobre e exíguo que não me permite traduzir os estados do interior, sentimentos, vontades e quereres. Perante tanta adversidade, resolvi apenas desenhar as letras, escrevendo por mim o que, mesmo que entendido como resumo, se afigura como registado, não apenas nesta folha de papel, mas também no meu interior, na alma: que há tanto e tanto, gosto de ti, enfim, que te amo. Bendita caneta de tinta permanente.
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Texto de José João Canavilhas Imagem: Pixabay

