Onde estavam os leitores do Gaibéu no 25 de Abril de 1974 – Texto de Teresa Roriz

Chegou-nos também o testemunho de Teresa Roriz.

“Os primos, Tuxa, Nixa, Júlio, vieram dormir à nossa casa. No salãozinho azul, fizeram-se as camas. Para nós, era muito entusiasmo, muita brincadeira. Adorávamos estar uns com os outros.

Na sala, sentia-se um nervosismo alegre e preocupado, que vinha das nossas mães. Percebi, por algumas palavras que de entre a algazarra que fazíamos, nos chegavam, até ao salãozinho.  Apercebi-me que, se desse para o torto, o meu primo poderia ser preso, ou acontecer-lhe alguma coisa muito negativa. O meu primo, o Quim, como lhe chamávamos, era capitão, e estava envolvido. Envolvido em quê? Naquela coisa que se estava a passar e que fazia a minha mãe e a Carmen correrem constantemente para o rádio. Eu não as via, mas imaginava-as, coladinhas no rádio. Soube depois, depois de tudo acontecer, que a senha era a “Grândola, vila morena”; isso queria dizer que as coisas estavam a correr bem.

Depois, devo ter adormecido e no dia seguinte, o meu irmão Jaime, gritava pela casa fora:

– Viva Portugal!! Viva Portugal!!

E eu, ingénua como sempre, a ponto de parecer parva, respondi:

– Viva Portugal porquê?

Foi então que o meu irmão, 3 anos mais velho que eu, me disse:

– Não percebe que está a acontecer uma coisa muito importante? É uma revolução!! – e continuou, esfusiante, a correr pela casa fora.

Eu fiquei com a palavra revolução na cabeça e acreditei que tinha acontecido mesmo uma coisa muito boa e importante (o que depois se veio a revelar ), já que tinha o meu irmão, e ainda tenho, em muito boa consideração e de certa forma o seguia, queria aprender com ele.

– Abaixo o Salazar!! Abaixo o Salazar!!  – e o meu irmão explicou-me que dantes não se podia falar e agora já se podia.

E foi então que tudo começou. O meu pai saiu connosco numa carrinha, eu, a minha irmã mais nova e as primas e o primo, e na rua, as pessoas gritavam: “O povo unido jamais será vencido!!”.  Eu achei aquilo entusiasmante, e as caras das pessoas estavam diferentes, estavam muito abertas, estavam sorridentes e fortes. Mas com o passar dos dias, a coisa melhorou. Cada dia que passava, melhorava. Havia manifestações na rua, onde as pessoas todas juntas cantavam e até, às vezes, davam as mãos enquanto cantavam. E depois olhavam umas para as outras nos olhos, havia muitos cravos, as ruas enchiam-se de cravos e os jovens subiam acima das árvores, penduravam-se nas varandas, subiam em estátuas e ninguém criticava. Era uma festa de amor. Eu sei que, naqueles momentos, qualquer pessoa podia bater à porta de outra pessoa, que seria convidada a almoçar. E a conversa seria franca, animada e solidária.

Recordo o 25 de Abril, não só aquele dia, mas alguns anos que se seguiram e sinto que a minha personalidade foi feita por esse ambiente, ideais, coisas de que depois me fui inteirando e gostando muito e participando activamente, sendo das pessoas mais novas nesses grupos de jovens.”

Teresa Roriz

*Resposta ao desafio do Gaibéu

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