A cidade suspensa: modelo de decadência e abandono

Rui Brito Fonseca
Seguir

Durante algumas décadas o centro de Vila Franca de Xira foi constituído por um conjunto edificado de alguma nobreza, onde pontuavam o Palácio da Justiça, o Cineteatro, o Café Central, o Celeiro da Patriarcal, a Estalagem da Lezíria, os Correios e o conjunto arquitectónico do Largo da Câmara. Estes edifícios marcavam indelevelmente a cidade e eram o cartão postal da mesma.
Em meados da década de 1990, quis a decadência das grandes salas de teatro e cinema – em parte, resultantes de políticas culturais erradas – e a especulação imobiliária que os antigos Cineteatro e Estalagem da Lezíria fossem demolidos. Assim, de uma assentada, perdiam-se dois dos edifícios que marcavam a arquitectura da cidade e a vida da mesma.
Em seu lugar, nascia imponente e envolto em polémica o VilaFranca Centro. Este novo investimento de milhões de euros centrava em si as esperanças de uma população que desejava para si um símbolo de uma modernidade consumista – confusão com desenvolvimento – e os receios de um comércio tradicional bem alicerçado, porém economicamente débil. O novel centro comercial era mais um símbolo do Portugal de sucesso da década de 1990, assim como, outros que se lhe seguiram por todo o país, cujo culminar foi a Expo 98. Para muitos, o centro comercial que contava com a presença de algumas marcas internacionais de sucesso nas suas lojas, era um símbolo de que Vila Franca de Xira também tinha acedido a esse Portugal de sucesso, consumista e pujante.
As esperanças de sucesso eram tantas que aquele espaço contava com um cinema IMAX – talvez o primeiro da Europa – que se contava que atraísse milhares de consumidores. Contudo as esperanças de afluência de público goraram-se, ficando o empreendimento sem um dos seus principais atractivos.
A glória do empreendimento foi curta, tendo durado pouco mais de uma década. A sua existência não atingiu as duas décadas, não tendo conseguido a sustentabilidade suficiente para resistir à crise económica e às mudanças de hábitos sociais e económicos dos vila-franquenses.
Com o encerramento do centro comercial há cerca de dois anos, encerrou-se também a esperança de um modelo de desenvolvimento local assente num comércio de massas. O Portugal de sucesso da década de 1990 chegava assim ao fim, dando lugar ao modelo de desenvolvimento local mais orientado para o comércio de rua e para uma relação de maior proximidade com as pessoas.
Agora, quem entra em Vila franca de Xira depara-se com o triste espectáculo da decadência do Portugal de sucesso. O centro da cidade é hoje marcado por um edifício gigantesco abandonado e em pré-ruína, onde pontuam arbustos selvagens e redes de protecção. Hoje, duas das praças mais nobres da cidade – a da estação de caminhos-de-ferro e a do tribunal – são marcadas por esta ruína. De uma cidade cujo centro era marcado por edifícios belos, úteis e vivos, ficamos agora com uma cidade com um cadáver urbano sem destino no seu coração.
Para o viajante que atravessa ou visita a cidade, fica uma sensação de estranheza e de repulsa ao confrontar-se com esta realidade. Para o vila-franquense que viveu todo o processo fica a certeza que a cidade tem de mudar!

*Fotografia de Helder Bento

Comentários

Comentários

Rui Brito Fonseca

“Expatriado” – no sentido em que está fora do seu destino de nascimento - da minha cidade há mais de uma década por opção, mas Vila-franquense por nascimento e convicção, sou um apaixonado pela cidade (onde me fiz gente) e pelo rio que a constrange. Doutorado em Sociologia e com um percurso superior a 10 anos na investigação científica, sou docente no ensino superior e consultor. Mais que tudo, é o prazer de comunicar e a necessidade de exprimir conhecimentos e interpretações das realidades quotidianas que me fazem abraçar este projecto. Espero ser útil…

pedro-fonseca has 10 posts and counting.See all posts by pedro-fonseca