“Olha bem para o jogo e mata-os depressa!”

Rui Brito Fonseca
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“Olha bem para o jogo e mata-os depressa!” – diz uma mãe para o seu filho de não mais de 5 anos, junto da saída de um supermercado, na periferia de Lisboa.

As palavras “jogo” e “morte” numa mesma frase, têm o efeito de impulsionar um arrepio de frio na minha espinal medula. A leveza com que incutimos nas crianças o conceito de morte, transformando o acto de matar em algo lúdico e sem consequências éticas e morais (para não falar noutras…)! Através do jogo, a morte torna-se em algo de limpo, sem dor, sem sofrimento, sem cheiro e sem culpa. Matar torna-se um acto de prazer, capaz de gerar reacções no córtex cerebral de euforia similar a uma vitória desportiva. Matar torna-se assim numa espécie de desporto, sem culpa, sem vítimas e sem danos.

Se, por um lado, cada vez mais as séries televisivas são portadoras de imagens associadas a mortes violentas e explicitamente chocantes, onde abundam imagens de massacres e de sangue, por outro lado, temos uma parcela da população na qual a resistência à adversidade e ao esforço é mínima. Para estes tudo tem de ser leve, divertido, limpo, alegre e despido de noções como o sacrifício e o esforço. Estes cidadãos trabalham durante o dia e à noite matam adversários de jogo ou consomem séries carregadas de violência e destruição, no seu quarto em casa dos pais. A opção pelo conforto da casa de família, é uma opção clara de fuga ao sacrifício que a geração dos seus pais experimentou, quando migrou do campo para a cidade. Esta preferência por uma vida em que o sacrifício e o esforço são conceitos ausentes e onde a felicidade paradoxal do consumo imediato é rainha, é geradora de custos sociais e pessoais enormes, pois estes cidadãos não só recusam a sua autonomia como sobrecarregam a geração mais velha, autolimitando algumas competências sociais e humanas. Ao optarem por uma vida livre dos constrangimentos de uma vida autónoma e carregada de mais responsabilidades, estes cidadãos optam por uma vida que se consubstancia numa infância tardia, onde o jogo e o consumo de brinquedos tecnológicos dão continuidade à sua infância centrada no “eu”, bem para lá da maioridade.

Um exemplo episódico destes comportamentos, mas replicável por milhares de situações idênticas a que já todos assistimos, tive a oportunidade de observar há alguns dias. Estava eu num concerto – igual a tantos outros dos múltiplos festivais que enchem o verão nacional – e boa parte dos jovens que assistia ao mesmo, estava a jogar nos seus telemóveis ou a partilhar imagens de si nas redes sociais, centrados no “eu” e preocupados com a promoção da sua imagem pessoal. Por outras palavras, aqueles jovens (talvez um quarto dos jovens presentes) em lugar de estarem a escutar a música e a dançar, isto é, a usufruir plenamente da performance artística, estavam num exercício ou de abstracção mental ou de narcisismo.

Somos os “pais” de cidadãos centrados no “eu” e obcecados com a sua auto imagem e imagem pública, capaz de sacrificar o seu semelhante através do jogo, mas que resistem a sacrificar o seu hedonismo a uma ética de trabalho e de esforço, centradas na comunidade e no bem comum.

Algures, entre as relações interpessoais “face a face” e as relações interpessoais mediadas pelas redes sociais, há todo um espaço capaz de produzir complementaridades e mudanças que urge explorar e desenvolver, possibilitando um reposicionamento mais equilibrado do indivíduo na sociedade.

 

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Rui Brito Fonseca

“Expatriado” – no sentido em que está fora do seu destino de nascimento - da minha cidade há mais de uma década por opção, mas Vila-franquense por nascimento e convicção, sou um apaixonado pela cidade (onde me fiz gente) e pelo rio que a constrange. Doutorado em Sociologia e com um percurso superior a 10 anos na investigação científica, sou docente no ensino superior e consultor. Mais que tudo, é o prazer de comunicar e a necessidade de exprimir conhecimentos e interpretações das realidades quotidianas que me fazem abraçar este projecto. Espero ser útil…

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