Onde estavam os leitores do Gaibéu no 25 de Abril de 1974 – Texto de José João Canavilhas

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Chegou-nos este texto de José João Canavilhas que tinha "12 anos, 2 meses e 21 dias de idade, no dia 25 de Abril de 1974" e escreveu este texto "a pedido de um jovem estudante da Escola Pedro de Santarém, Benfica, Lisboa em 2010, a propósito da partilha do dia 25 de Abril de 1974. O jovem tinha a mesma idade que eu, na data da revolução, 12 anos".
"Partilhar a aventura do 25 de Abril

Como sempre levantei-me a custo. A remela no canto do olho não era fácil de tirar, pudera, apenas com alguns pingos de água na ponta dos dedos. Mas a minha mãe estava sempre atenta. Já desperto, e com café com leite e a torrada, bebido e comido, lá arrastei os meus imensos caracóis, mala (a mochila só usava para os acampamentos de fim de semana) e algum brinquedo camuflado na roupa, porque também em 1974, era suposto o aluno ser estudante... Do you know what i mean?

Pela rua, e eram já cerca das 8.15 horas da manhã, ouviam-se uns rumores sobre soldados, liberdade, a PIDE, e que tinha acabado a guerra. Bom, pensei eu, agora já não me vão dar calduços para eu me calar, quando passo por uma viela onde está escrito “abaixo a guerra colonial”, e que eu, na minha inocência dizia que estava bem a ideia. Isto porque me tinham obrigado a ver um filme que se chamava “Angola, na guerra e no progresso”. Eu tinha pesadelos com armas, tiros, combates. A ideia de um dia ter de ir combater, principalmente, depois de ver o filme, e do meu pai, sussurrando, ter dito que cada povo tem a sua terra e aquela (a África) não era a nossa, e cada um fazia bem lutar pelo que é seu… tirava-me o sono.

Naquela manhã de Abril, estava nervosamente contente, sem ainda saber a causa. Cheguei ao edifício da escola e vi os meus colegas a olhar para o declive mais acima, junto à auto-estrada Lisboa – Porto, em Vila Franca de Xira. Sorrimos e comentámos, afinal sempre havia soldados na rua, devia ser verdade o que “a malta” da rua dizia. Lembro-me que fomos até a uns poucos metros de um soldado que estava em posição de deitado, com uma espingarda metralhadora G3, com um bivaque (boné militar) na cabeça, que nos sorriu. O sorriso que hoje recordo ser de felicidade. Pediu para nos afastarmos porque não podíamos estar ali, poderia ser perigoso. Lá fomos, de longe viam-se melhor as operações. Para nós parecia um teatro em formato grande. Foi uma manhã em cheio, nem os filmes do Tarzan, nem Ben-Hur, cowboys e outras aventuras nos tinham impressionado tanto. A ponte de Vila Franca de Xira era outro dos pontos do cenário daquela agitação. Nunca tive medo. Na antiga Escola Preparatória Afonso de Albuquerque, alguns dos meus colegas começavam a ficar inquietos e tristes, pois não podiam sair sem ordem dos pais e, mesmo não havendo aulas, tinham de ficar. Eu esperei até ver tudo, pois dos fundos da escola víamos claramente as operações de patrulhamento e defesa da auto-estrada e da Ponte. Já eram quase 11 Horas quando decidi ir para casa, achava-me importante por ter vivido aquela “aventura”, mais ainda quando soube que o capitão Salgueiro Maia vinha do meu distrito. Tinha de me apressar, queria ir partilhar com o meu pai, o meu herói das ideias, que me contava histórias e estórias da vida e do mundo. Pelo caminho encontrei muitos sorrisos. As varinas falavam alto na liberdade, os homens diziam que os soldados do Ultramar iam voltar. Os marinheiros da Escola da Armada já vinham subindo para a vila, mas de espingarda a tira-colo, sorrindo e acompanhados de populares, que lhes distribuíam flores, pão e bebidas. A minha mãe vinha ao meu encontro e, claro, com aquela cara... Vocês também têm mãe, não é? Então sabem.

- Ai, filho, então não aconteceu nada? Anda para casa, menino, então tu não sabes rapaz, temos de ir para casa?! Aconteceram coisas sérias, e não se sabe onde isto vai dar...

Lá fui, contrariado, mas fui, que remédio... A minha vontade era ir continuar a viver a aventura, mas enfim...

O meu pai chegou logo depois, já era meio-dia, vinha feliz, contou tantas histórias adiadas, relembrou tudo o que sabia das escutas das rádios clandestinas. Falou-me da libertação de África, dos presos políticos, da liberdade de falar, dos jornais com liberdade de escrever. Foi um turbilhão de coisas novas naquela cabeça, com pouco mais que caracóis, mas que queria aprender e viver tudo. Fiquei com a família a ouvir o Adelino Gomes na rádio, parecia um filme, a descrição dos acontecimentos emocionava-me e puxava-me para a rua, mas acabei por adormecer, entre os joelhos do meu pai e o colo da minha mãe.

No dia 26 acordei cedo, e fui esperando pelos companheiros de brincadeira (não havia aulas), e depois, lá estávamos a inventar uma revolução, com as meninas a oferecer flores, e nós, soldados, retribuíamos com beijos (como tínhamos visto na rua). Continuávamos felizes, a nossa política era a pureza da vida, tínhamos sempre a simplicidade ao lado e vivíamos bem com as nossas verdades simples.

Mais tarde ouvi que era preciso cumprir Abril. Lembro-me sempre do Mestre José de Almada Negreiros: “Quando eu nasci, todos os tratados que visavam salvar o mundo já estavam escritos. Faltava apenas uma coisa: salvar o mundo.”

 

Cada dia que passa, cada ano que vem, sinto-me mais perto da mudança, mais longe do real obscuro, do futuro imprevisível, mas domado, e de uma clara manhã que me deixou e deixará sempre de sorriso de felicidade grande."

José João Canavilhas

*Em resposta ao desafio do Gaibéu

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